Quem somos
Localize sua Turma
Galeria de Fotos
Cadastre-se
Associado Efetivo
Netmail
Seguro de vida
Porque hoje é sexta feira
Recrutamento e seleção
Links interessantes
Fale conosco
IV Fórum de Executivos
 
 


 
 

Sexta-feira, 24 de maio de 2002

Porque hoje é sexta-feira é uma prática de treinamento à distância instituída, em novembro de 1998, no Centro de Recursos Humanos da Secretaria dos Transportes Metropolitanos - STM, de circulação através do correio eletrônico interno, que além de divulgar artigos técnicos e de autores consagrados, aborda temas de gestão, de relacionamento interpessoal, ambiente e atitudes, com intuito de promover desenvolvimento e aprimorar as relações no trabalho.

"Como as pepitas de ouro, muitas vezes as idéias estão recobertas de lama. Se ignorarmos seu brilho, poderemos desperdiçá-las. Por isso, devemos guardar até as idéias que não nos parecem tão interessantes num primeiro momento."

IDÉIAS PARA O PROFISSIONAL

Você procura segurança para avançar em sua carreira? Quer se transformar sempre, no trabalho e na vida pessoal? A inspiração para tudo isso pode estar nos valores anotados pelo escritor Italo Calvino.

Por Renato Guimarães Ferreira.

Em junho de 1984, a Universidade de Harvard convidou Italo Calvino a fazer seis conferências sobre os valores literários que mereceriam ser preservados no próximo milênio. Infelizmente, devido à morte súbita do escritor italiano em 1985, essas conferências jamais foram proferidas. Cinco delas já estavam quase prontas e foram publicadas postumamente no livro Seis Propostas para o Próximo Milênio (Companhia das Letras). Os valores ali explorados são: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade (não restou tempo a Calvino para desenvolver o valor da consistência, que seria o tema de sua última conferência).

Li esse livro em meio a um projeto sobre as transformações dos modelos tradicionais de carreira e percebi logo que suas lições poderiam ajudar numa reflexão sobre trabalho e posicionamento pessoal. É um livro denso e vigoroso, rico de sugestões que ultrapassam o universo específico da literatura. Inspirado nele, e não propriamente baseado nele, desenvolvi alguns pontos que me parecem relevantes neste momento.

Todos nós, ou muitos de nós, temos sentido falta de alguma estabilidade para conduzir nossa biografia profissional. Sentimos falta de elementos que nos dêem segurança para avançar, parâmetros para nos transformar e critérios para nos desenvolver. E esses valores propostos por Calvino surgiram como uma referência para as mudanças e permanências que deverão ocorrer em nossas carreiras daqui para a frente. Não são respostas prontas, mas servem como estímulo para o pensamento criativo, pois nos ajudam a construir respostas, e não simplesmente a encontrá-las. É sobre esses valores que escrevo aqui, numa interpretação livre das palavras de Calvino.

LEVEZA

O trabalho, para muitos de nós, está ficando difícil, pesado e frio. As cobranças tornaram-se mais intensas e freqüentes, e as punições por não alcançarmos resultados são mais severas e imediatas. Visto apenas desse aspecto, trabalhar é uma pedra no caminho -- ou, pior ainda, uma pedra no sapato. Como sair dessa situação? É possível transformar essa experiência tão central em nossa existência em algo mais leve e significativo? Vejam o que Calvino diz: "Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que, à maneira de Perseu, eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou para o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob nova ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle".

É curioso como isso se aproxima das recomendações que têm sido feitas sobre as mutações vertiginosas do mercado de trabalho -- mudar de perspectiva, conceber uma lógica que permita a criatividade daquilo que ainda não foi pensado, substituir o peso das frustrações pela leveza dos projetos, cultivar a leveza que nos permite saltar...

Profissionalmente, parece necessário observar a direção e a intensidade das forças que não controlamos, de maneira a melhor lidar com elas. Em outras palavras, é mudar para não sermos mudados. Parece vital ser leve o suficiente para explorar novos campos, criar novas conexões e construir novas competências. Mas é preciso evitar sempre o voluntarismo tolo e fantasioso, que pode fazer com que nossos projetos se dissolvam em contato com a realidade. Fácil? Certamente não, mas é necessário e provavelmente inevitável tentar.

É importante enfatizar que essa apologia à leveza se faz com respeito ao valor do peso, e não como algo que o pretende negar. O repertório de conhecimentos e experiências individuais é um lastro que não se pode abandonar como um par de sapatos velhos. Não podemos, quem sabe até por sermos incapazes, mudar de perspectiva como quem troca a cor e o grau dos óculos. A leveza na trajetória profissional é algo distinto, algo que se cultiva sistematicamente e que, ao fim e ao cabo, nos permite tratar de maneira mais criteriosa o acúmulo e a calcificação daquilo que passou. É um critério, mas também um filtro, algo que nos permite seguir adiante, na vida e na profissão, levando tudo que somos -- só que livres do peso do passado, em plena e transformadora reconstrução do presente. O valor da leveza é, antes de mais nada, um compromisso com o movimento.

E que não se confunda leveza com algo difuso, nebuloso. Para Calvino, ela está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago e aleatório. Diz ele, citando Paul Valéry: "É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma".

RAPIDEZ

Jorge Luís Borges disse uma vez que "o presente não é nada mais do que o instante em que o futuro se desintegra em direção ao passado". Hoje, a velocidade dessa desintegração parece cada vez maior, exigindo um aumento da nossa capacidade de agir com rapidez. Torna-se necessário fazer sempre mais em menos tempo, diminuir o tempo de resposta, chegar lá -- muitas vezes sem entender muito bem o que significa esse "lá".

Essa aceleração dos ciclos de tempo tem um impacto forte na maneira como lidamos com o desenvolvimento de nossa carreira. Percebe-se, principalmente entre os mais jovens, uma valorização acentuada da rapidez. Isso está claro na busca intensa, quase frenética, por resultados e recompensas cada vez mais rápidos. O problema é que assim se perde a noção de cultivo. Concordo que é preciso agir com rapidez, já que o ambiente à nossa volta está se transformando continuamente, mas não nego a importância de outros ritmos de vida e de trabalho. Ou seja, também penso na rapidez como um valor que está presente em momentos decisivos, mas que guarda uma relação rica com o tempo de recolhimento, com "os prazeres do retardamento".

É claro que nossa rapidez de adaptação, nossa agilidade mental e física, nossa mobilidade e desenvoltura têm sido valorizadas pelo mercado de trabalho, cada vez mais exigente. Mas, por outro lado, sabemos que a falta de um tempo dedicado à reflexão, ao autoconhecimento e ao autodesenvolvimento tem contribuído para a obsolescência das pessoas, que acabam perdendo a energia vital em meio a crises de estresse e angústia. Relembrando a máxima latina citada por Calvino, é preciso "apressar-se lentamente".

EXATIDÃO

Em um mercado em que a terra treme, os ventos sopram e a chuva cai, é preciso ter um senso de direção, que nos permita continuamente dizer onde fica o norte -- o nosso norte pessoal. Exatidão na vida profissional quer dizer aqui uma fuga das "fórmulas genéricas, anônimas, abstratas". Das fórmulas profissionais que já vêm prontas, determinadas por outros, algo que nos embota a expressão, apaga as marcas da face e as marcas das mãos.

Exatidão a ser buscada, para que, ao final de uma trajetória profissional, não nos identifiquemos, por exemplo, com o que escreveu Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa:

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era

E não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pregada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir

o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para

provar que sou sublime.

VISIBILIDADE

O valor de visibilidade nos remete à questão do marketing pessoal: como criar e transmitir uma imagem de si que adquira relevo e densidade em um mercado já repletos de estilhaços de imagens? Isso é algo importante, mas é apenas parte da história. O ponto fundamental da visibilidade é muito mais amplo -- diz respeito à capacidade de tornar visível para si e para os outros, com uso intensivo da imaginação, aquilo que parece impossível, inviável, inalcançável.

Calvino diz o seguinte: "Se incluí a visibilidade em minha lista de valores a preservar, foi para advertir que estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de pensar por imagens".

Pensar por imagens e comunicar-se por meio delas parecem ter se tornado competências fundamentais em um mundo que é dominado por elas. O desenvolvimento de uma carreira marcada pela realização certamente implicará no desenvolvimento da capacidade de construir imagens plenas de significado, nítidas, marcantes e mobilizadoras. Essas imagens surgirão de novas combinações do possível com o impossível, de conexões não tradicionais, que rompam fronteiras e desloquem sentidos.

MULTIPLICIDADE

Há dois sentidos básicos para a palavra "organização" na maioria dos dicionários. Um deles está centrado na idéia de um grupo de pessoas que mantém vínculos razoavelmente estáveis para a obtenção de um objetivo comum. O outro sentido refere-se ao processo e ao efeito de organizar, de pôr ordem nas coisas. Ao longo do tempo, privilegiou-se de maneira acentuada, tanto na prática quanto na teoria, o primeiro sentido. O valor da multiplicidade, no entanto, parece se adequar de maneira muito mais intensa ao segundo sentido, já que as configurações organizacionais de hoje são marcadas por uma variedade infinita de vínculos, conexões, saberes, perspectivas e papéis.

Fazendo um paralelo com a maneira como Calvino se refere ao romance contemporâneo, parece ser mais rico entender a organização como uma "rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo". É em meio a essas conexões das mais diversas naturezas que se realizam nossas trajetórias profissionais, que se desenvolvem nossas carreiras. Estamos num momento que exige atenção muito maior para a formação de redes de relacionamentos, tanto na empresa em que trabalhamos quanto fora dela. Hoje, vivendo e trabalhando em ambientes interconectados, temos de multiplicar nossos vínculos multidirecionais e romper a lógica verticalizante dos arranjos tradicionais.

Temos, enfim, de aumentar nossa capacidade de "saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo".

UMA ÓTIMA SEMANA!!!

* Carlos Augusto Roveri é Administrador de Empresas pela Faap (1977), com especialização em gerenciamento da qualidade para brasileiros pela AOTS, em Yokohama, no Japão, é Diretor de RH e Ouvidor da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos - STM, é Vice-Presidente na Associação Paulista Administração de Recursos Humanos-APARH e Diretor de Relações com Entidades da Associação Brasileira de Recursos Humanos ABRH Nacional.
E-mail: roveri@faap.net