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Sexta-feira, 17 de maio de 2002
Porque
hoje é sexta-feira é uma prática de treinamento
à distância instituída, em novembro de 1998, no Centro de
Recursos Humanos da Secretaria dos Transportes Metropolitanos
- STM, de circulação através do correio eletrônico interno,
que além de divulgar artigos técnicos e de autores consagrados,
aborda temas de gestão, de relacionamento interpessoal, ambiente
e atitudes, com intuito de promover desenvolvimento e aprimorar
as relações no trabalho.
"Como as pepitas de ouro, muitas vezes as idéias estão recobertas
de lama. Se ignorarmos seu brilho, poderemos desperdiçá-las.
Por isso, devemos guardar até as idéias que não nos parecem
tão interessantes num primeiro momento."
Memórias do século XXI
As
previsões sobre o futuro estão quase sempre
erradas. Mas, quem disse que é para as pessoas saberem
o que vai acontecer com elas amanhã?
Por Max Gehringer
Hoje é
quarta-feira, 20 de agosto de 2124 no Brasil, que agora chama-se
Wednesday, já que o português foi oficialmente
banido quando nos tornamos o 67º Estado dos United States
of Wide America, em 2095. Teve quem não gostou, claro,
principalmente depois que a Floresta Amazônica virou
a Tropical Disney World, mas a maioria apoiou porque finalmente
pôde tirar passaporte americano sem aporrinhação
e passou a receber salário em dólares. É
verdade que muitos brasileiros ainda conservam um ranço
xenófobo, o que é meu caso, por isso este relatório
está sendo escrito em nossa antiga língua-mãe,
que eu só domino porque nasci lá, no distante
ano de 1980.
Fiz 144 anos,
trabalho há 126, estou forte e saudável, mas
já ouço insinuações de que minha
carreira entrou no plano vegetativo. A vida corporativa do
século XXII não é justa com o pessoal
da sexta idade, como eu: basta a gente chegar aos 140, e começa
a ser discriminado no trabalho...
Os velhos tempos me dão saudade (uma de nossas poucas
palavras que entraram no Mega Dicionário Americano,
como sinônimo para "senseless feeling"), apesar
de quase mais nada ser como era. Por exemplo, eu nasci com
unhas, cabelos e dentes, últimos resquícios
de nossa ascendência selvagem. E, na juventude, pratiquei
zelosamente um ato denominado "sexual" para a reprodução
da espécie, coisa que, hoje, a ciência simplificou
muito: basta ir a qualquer McDonald's, comprar um 'kit' de
óvulo e espermatozóide (o nº 3 tem sido
o preferido pelos consumidores, porque acompanha uma Coca-Cola
inteiramente grátis) e inseri-lo num tubo plugado a
um sistema embrionário - cujo nome técnico é
"tamagoshi". Aí, é só redigitar
a configuração desejada do genoma e depois ir
clicando os comandos para as cargas vitais de proteínas.
Simples. Em seis semanas, aparece a ficha fitoergométrica
da criança, os custos de alimentação
e educação e a mensagem "Are you sure you
want to give birth?" Meu filho mais novo, o 365A27W648,
vulgo "8", agora deu de ser curioso e me perguntar
porque, no meu tempo, as coisas eram tão complicadas.
Eu tentei explicar para ele que o tal ato ia além da
simples reprodução, que a gente sentia prazer
em copular, e ele fez aquela cara de nojo, típica de
adolescente recém-saído da universidade. Mas,
tudo bem, ele tem só 4 anos, um dia talvez entenda
melhor.
Eu sei, estou
divagando, desculpem. Não é das reviravoltas
da natureza que este relatório trata, e sim das relações
no trabalho. Meu 'hiperboss' vai fazer uma apresentação
no mês que vem, em Urano - com o criativo título
de "Como Enfrentar os Desafios do Século XXII"
e pediu minha colaboração. Ele quer mostrar
às novas gerações a evolução
da interação entre empresas e funcionários
ao longo dos últimos 150 anos, desde a chamada "Era
Jurássica Trabalhista" (1980-2020) até
o aparecimento do "Homo Pizza", no final do século
XXI. E me escolheu, porque eu vivi todas as etapas do processo,
além de ser o único por aqui que ainda sabe
usar algarismos romanos. Então, vamos lá:
TRANSPORTE
Os empregados
acordavam de manhã e iam para seu local de trabalho,
dirigindo um veículo pesadão e lerdo, que funcionava
queimando derivados do extinto petróleo, chamado "automóvel"
- não sei bem porque esse nome, que significa "move-se
por si mesmo", já que o tal veículo só
se movia sob comando humano e, algumas vezes, nem assim. Mas
a maior dificuldade era enfrentar o "trânsito",
do latim transire, "ir para a frente", e esse era
exatamente o problema, já que o trânsito quase
nunca ia em frente, e daí originou-se uma frase de
uso muito comum, "Atrasei por causa do trânsito"
que, literalmente, significa "Fiquei para trás
porque fui para a frente". Ou seja, aquele povo era duro
de entender. O mais incrível é que, apesar de
tanta confusão e contrariando a lógica, as pessoas
ainda conseguiam chegar ao que chamavam "local de trabalho".
LOCAL
O sistema jurássico
de trabalho era coletivo, e as empresas até usavam
jargões como "teamwork" para incentivar essas
aglomerações, sem atentar para o fato de que
elas eram uma fonte de proliferação de micróbios.
O ponto de encontro era o escritório, um lugar onde
os funcionários escreviam, daí a origem da palavra.
Eram áreas enormes, onde pessoas se amontoavam em cubículos
e passavam a maior parte do tempo produzindo "documentos",
cuja principal finalidade era a de servir como evidência
física de que as pessoas estavam ocupadas. Após
produzidos, os documentos eram imediatamente "arquivados",
de preferência em lugares onde nunca mais pudessem ser
localizados. Isso, na época, tinha o mesmo nome de
hoje: "burocracia". A diferença é
que os atrasados do século XX faziam tudo com oito
cópias, e nós, 150 anos depois, conseguimos
reduzir para sete.
INDIVIDUALIDADE
O primeiro passo
para erradicar o coletivismo inútil foi o "SoHo"
(Small office, Home office), uma sigla surgida aí por
2000, que permitia aos funcionários trabalhar, confortável
e produtivamente, em suas próprias casas. No Brasil,
uma das conseqüências imediatas do 'SoHo' foi o
aparecimento de uma variante esperta, o "SoNo".
O que obviamente implicou num aumento brutal da quantidade
de documentos produzidos, porque só assim os chefes
acreditariam que seus funcionários estavam acordados
em suas casas. Depois do 'SoHo' veio o "SoCo", aí
por 2050. O "Co", todo mundo sabe, significa 'Chip
office'. Foi quando as corporações conseguiram
implantar um microchip em cada funcionário para controlá-lo
24 horas por dia, desde o batimento cardíaco até
o nível de atividade dos neurônios.
Uma das características do 'SoCo' que mais agradou
às chefias - além do comando de "wake up
call" - foi a possibilidade de emitir um choque elétrico
remoto quando o funcionário atrasasse a remessa de
um documento.
JORNADA
Trabalha-se oficialmente
2 horas por semana, mas já há rumores de que
a jornada será reduzida para 100 minutos semanais.
O que, tirando o tempo necessário para o sono e as
inconveniências fisiológicas - que não
sofreram alterações nos últimos 100.000
anos -, resulta em 120 horas ociosas por semana. O professor
Domenico De Masi, que vive em estado de hibernação
metafísica na Itália, afirma que isso é
um absurdo, e defende a tese de que no futuro trabalharemos
100 minutos por ano. Mas o problema, mesmo, é que nunca
conseguimos nos acostumar com o ócio. Por isso, nossa
maior fonte de renda atual é a hora extra - fazemos,
em média, 14 delas por dia, inclusive aos sábados.
EFEITOS COLATERAIS
Hoje, as megacorporações
vêm se questionando se essa troca do trabalho grupal
pelo individual foi realmente um progresso. Primeiro, porque
ninguém mais conhece ninguém, já que
os "colegas" viraram imagens digitalizadas. Segundo,
porque todo mundo ficou sedentário e engordou uma barbaridade.
E terceiro porque os antigos executivos eram estressados,
e os novos sucumbem à depressão, o que acarreta
muitos suicídios (ou, em linguagem ciberneticamente
correta, 'self alt+ctrl+del'). O maior guru de administração
do século XXII - Tom Peters, vivendo confortavelmente
em estado gasoso, num tubo de ensaio - publicou recentemente
um artigo que está causando uma comoção
corporativa. Ele defende a tese de que "nada substitui
o contato humano". Incrível, dizem seus fiéis
admiradores, que ninguém tivesse pensado nisso ainda.
EMPREGO
Conseguir um
bom emprego hoje em dia não é difícil.
O duro é se manter nele, porque as exigências
para resultados de curtíssimo prazo aumentam cada vez
mais. O tempo médio de permanência num emprego
é de 28 horas. Daí o conceito em moda ser o
da habilidade para saltar de galho em galho, ou "businessbilidade",
que se resume a três fatores: experiência cósmica,
formação galáctica e ser bem relacionado
com quem manda.
SEXO
As diferenças
entre sexos não são mais limitantes para o preenchimento
de um cargo. Não porque tenha acabado a discriminação,
mas porque acabaram os sexos. A antiga classificação
"masculino/feminino/outros" caiu em desuso a partir
do momento em que os assim chamados "homens" e "mulheres"
equilibraram seus níveis de testosterona e estrógeno.
A ambivalência chegou a tal ponto que hoje os dicionários
só registram a palavra "testículo"
como sinônimo de "pequeno teste aplicado a estagiários".
HIERARQUIA
Nos tempos primitivos,
as posições hierárquicas eram decididas
ou por competência ou por protecionismo. Mas levava
vantagem quem acumulava mais diplomas. Tudo mudou a partir
do momento em que foi implantado o sistema de "Transferência
Integral de Informações", pelo qual qualquer
ser humano, quando completa 2 anos de idade, é acoplado
a um megacomputador 'Deep Blue' e absorve, em 15 minutos,
o conhecimento acumulado pela espécie nos últimos
dez milênios. Tem aí uma novíssima teoria
dizendo que isso nos transformou numa raça de esponjas,
e que o grande diferencial atual é saber pensar por
conta própria, em vez de enfiar o dedo no nariz e dar
um "retrieve". Segundo a teoria, há uma minoria
de pensantes que consegue se perpetuar nas chefias porque
tem "Inteligência Psicoemocional", ou seja,
uma combinação balanceada de "instinto",
"conhecimento" e "autocontrole". Eu acho
que já ouvi isso antes, só que não me
lembro bem quando foi.
RELACIONAMENTO
Os funcionários
têm abertura para se comunicar fora do trabalho, desde
que respeitem o conceito-chave do século XXII: Lógica
Absoluta, ou seja, os assuntos devem ficar restritos aos negócios.
Sentimentos e emoções, manifestações
consideradas contraproducentes, estão proibidas desde
2104. Mas sempre tem quem não sabe aproveitar a liberdade:
nosso maior problema social são os subversivos que
se reúnem escondidos para praticar o maior delito da
atualidade: rir e contar piadas. Não é por acaso
que o maior 'best-seller' desta semana é o cibertexto
de auto-ajuda "Você Pode Ser Feliz, Desde Que Ninguém
Saiba".
INFERNET
A arcaica Internet,
uma rede de comunicação que causou furor no
fim do século XX, e que hoje é citada como exemplo
de paranóia coletiva, foi substituída pela Infernet,
à qual todos somos plugados logo ao nascermos. A palavra
veio do latim infernus, "subterrâneo", uma
analogia a seu formato de raízes que alimentam o caule
central. O caule, de onde saem e para onde convergem todas
as informações, é a Suprema Inquisição,
cuja regra é "Todos somos iguais perante Deus".
Sendo que Deus, como todos sabem, é Bill Gates. Embora
corra por aí o boato de que quem manda, mesmo, é
o ACM.
CONCLUSÃO
Em
meus 144 anos, vi o futuro ir acontecendo, e aprendi pelo
menos uma coisa: as previsões estavam sempre erradas.
Acho que descobri o porquê. Outro dia achei um livro
antigo, que já caiu em desuso por ser a negação
da lógica. De qualquer forma, lá foi escrito,
há milhares de anos, que cada dia é diferente
do outro, exatamente "para que o homem nunca possa descobrir
nada sobre seu próprio futuro"
(Eclesiastes, 7, 14).
UMA ÓTIMA SEMANA!!!
* Carlos Augusto Roveri é Administrador de Empresas
pela Faap (1977), com especialização em gerenciamento
da qualidade para brasileiros pela AOTS, em Yokohama, no Japão,
é Diretor de RH e Ouvidor da Secretaria de Estado dos
Transportes Metropolitanos - STM, é Vice-Presidente
na Associação Paulista Administração
de Recursos Humanos-APARH e Diretor de Relações
com Entidades da Associação Brasileira de Recursos
Humanos ABRH Nacional.
E-mail:roveri@faap.net
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