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Sexta-feira,
28 de março de 2003
Porque
hoje é sexta-feira é uma prática de treinamento
à distância instituída, em novembro de 1998, no Centro de
Recursos Humanos da Secretaria dos Transportes Metropolitanos
- STM, de circulação através do correio eletrônico interno,
que além de divulgar artigos técnicos e de autores consagrados,
aborda temas de gestão, de relacionamento interpessoal, ambiente
e atitudes, com intuito de promover desenvolvimento e aprimorar
as relações no trabalho.
"Como as pepitas de ouro, muitas vezes as idéias estão recobertas
de lama. Se ignorarmos seu brilho, poderemos desperdiçá-las.
Por isso, devemos guardar até as idéias que não nos parecem
tão interessantes num primeiro momento."
EU
SEI, MAS NÃO DEVIA
Marina Colassanti
Eu
sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a
não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque
não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir
de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se
acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que
se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque
está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de
viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair
do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque
está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido
o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números
para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar
nas negociações de paz. E não aceitamos as negociações de
paz, aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa
duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone:
hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um
sorriso de volta. A ser ignorado quanto precisava tanto ser
visto.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir
as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir
a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser
instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata
dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que
deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro
com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila
para. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que
cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar
mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se
cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro
tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias
da água potável, à contaminação da água do mar. À lenta morte
dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos
na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher
fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses
pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está
cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua no
resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola
pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito
o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito
porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar
a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para
esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A
gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta,
e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Tenha Uma Ótima Semana !!!
*
Carlos Augusto Roveri é Administrador de Empresas
pela Faap (1977), com especialização em gerenciamento
da qualidade para brasileiros pela AOTS, em Yokohama, no Japão,
é Diretor de RH e Ouvidor da Secretaria de Estado dos
Transportes Metropolitanos - STM, é Vice-Presidente
na Associação Paulista Administração
de Recursos Humanos-APARH e Diretor de Relações
com Entidades da Associação Brasileira de Recursos
Humanos ABRH Nacional.
E-mail: roveri@faap.net
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