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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006.
Porque hoje é sexta-feira é uma prática de treinamento à distância instituída, em novembro de 1998, no Centro de Recursos Humanos da Secretaria dos Transportes Metropolitanos - STM, de circulação através do correio eletrônico interno, que além de divulgar
artigos técnicos e de autores consagrados, aborda temas de gestão, de relacionamento interpessoal, ambiente e atitudes, com intuito de promover desenvolvimento e aprimorar as relações no trabalho.
"Como as pepitas de ouro, muitas vezes as idéias estão recobertas de lama. Se ignorarmos seu brilho, poderemos desperdiçá-las. Por isso, devemos guardar até as idéias que não nos parecem tão interessantes num primeiro momento.
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Marina Colassanti
Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado, porque está na hora. A tomar o café correndo, porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus, porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches, porque já é noite. A cochilar no ônibus, porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado, sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir a janela e ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler, todo dia, de guerra, de números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma, para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas e sangramentos, para esquivar-se da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Tenha Uma Ótima Semana !!!
* Carlos Augusto Roveri é Administrador de Empresas pela FAAP (1977), com especialização em gerenciamento da qualidade para brasileiros pela AOTS, em Yokohama, no Japão e MBA em Gestão de Empresas pela FIA/USP, é Diretor de Recursos Humanos e Ouvidor da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos - STM e é Conselheiro na Associação Brasileira de Recursos Humanos, Seccional São Paulo - ABRH-SP/Aparh.
E-mail: roveri@faap.net |