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Uma velha historinha
(*) Diorindo Lopes Júnior

Isso foi no começo de 87. Eu trabalhava como assessor de imprensa de um grande banco, então. Na ocasião, o ministro Dílson Funaro, um dos "pais" do Plano Cruzado, estava "cai-não-cai", sendo cozido em fogo baixo antes da fritura no cargo e o presidente do meu banco havia sido convidado para um programa de entrevistas na televisão.

Como sempre, convocou os aspones para uma bateria simulada de perguntas e eu, óbvio, estava em meio ao séqüito. Como sempre, as perguntas versaram sobre os rumos da economia, as necessárias correções de rumo, o que o banco estava fazendo para colaborar, essas coisas de puxa-sacos que só levantam a bola para o dono do jogo bater sem defesa.

Até que um deles tocou no ponto: e se perguntarem quem você indicaria para o lugar do Funaro?

-- Bem, titubeou o 'entrevistado', eu tenho amigos economistas muito bons e... - e foi citando.

-- Errado, você não indica ninguém! - bradei, do "alto" de minha então juventude.

Silêncio total. Com o canto dos olhos vi alguns aspones querendo voar em minha jugular, sedentos, ávidos, destilando perdigotos venenosos em minha direção. Eu, trêmulo por dentro, continuei a encarar, impávido, o presidente.

-- O cargo do ministro Funaro, que ainda não caiu, pertence ao presidente da República. Bem como a caneta que nomeia e demite. Se ele, pessoalmente, te consultar, você fala o que pensa. Do contrário, permaneça calado. O peixe morre pela boca e em boca fechada mosquito não monta casa para amante. De mais a mais, como esses nomes que você citou, o ministro também é teu amigo.

-- Você tem razão, rapaz - o presidente calou os aspones bajuladores e os dispensou.

Por que conto isso, agora, tantos anos depois?

Porque acredito que o atual presidente da República está encastelado (leia-se: isolado) na função que lhe cabe e cercado de aspones que lhe filtram tudo o que de verdade está acontecendo com a sua imagem e com a nação. Na volúpia de lhe agradar, só o fazem enfraquecer. De que adianta ser leal aos companheiros de antigas batalhas se esses mesmos companheiros não lhe são fiéis quando mais precisa?

O cidadão que exerce a presidência da República pode ter amigos que só lhe digam sim, mas o Presidente da República não pode se permitir esse luxo. O Presidente da República precisa, sim, se cercar de críticos, pessoas que tenham a coragem de dizer-lhe não, contrariá-lo, sugerir-lhe outros caminhos.

O que não pode é vestir-se de bombeiro para apagar egos inflamados e ofendidos ou tornar-se refém de uma base que se jura aliada, mas não passa de um magote de uma gentinha oportunista, nada confiável e muito ordinária quanto ao destino do país.

É a velha história: não é hora de fazer o mais fácil e sim o que é certo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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