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Vaso quebrado
(*) Diorindo Lopes Júnior
Uma noite, ele telefonou. Já passava das onze, mas ele precisava conversar. Preparei um balde de gelo e abri uma garrafa de uísque.
Pressenti que a madrugada seria longa, bastante longa.
Não esperava que ele aparecesse com uma pequena mala - e uma garrafa de conhaque e uma caixa de charutos baianos.
Soube na hora: mais que conversar, ele não pretendia voltar para casa. Pelo menos, não naquela noite.
Havia discutido demorada e civilizadamente com a mulher e concluíram que o melhor era dividirem o construído junto e cada um seguir sozinho sua estrada.
Sem mágoas, medos ou rancores.
- Faz tempo que quebramos nosso vaso - disse.
- Peças quebradas sempre podem ser consertadas, restauradas... - observei.
- Eu sei. E até pensamos nisso, tentamos reconstruí-lo. Mas, vaso quebrado, por melhor restaurado, sempre será um vaso quebrado. Pode iludir quem não sabe, mas nós sabíamos. Nosso vaso estava quebrado e nós o havíamos quebrado.
Dormiu no sofá de minha casa algumas noites, pouco conversamos. Chegava tarde, ligeiramente bêbado, tomava banho, via um pouco de tv, às vezes telefonava e saía muito cedo, sempre antes do sol.
Encontrei um bilhete na manhã de um sábado, junto de uma garrafa de uísque, outra de conhaque e uma caixa de charutos, agora cubanos. Agradecia a hospedagem e comunicava que havia arranjado um vaso novo.
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Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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