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Quando os trens chegavam e partiam todos os dias
(*) Diorindo Lopes Júnior

Fui visitar meus pais em Bauru e levei uma namorada. Um conhecido de ginásio nos convidou para uma feijoada em sua casa. Lá pelas três da tarde, resolvemos ir embora. Pensei em chamar um táxi, mas ela preferiu caminhar até o Centro, lá apanharíamos um. Calculei: umas dez ou doze quadras de descida até o viaduto, nada mal para suavizar as caipirinhas, cervejas e os efeitos da couve e do feijão preto.

No meio do viaduto, olhei a velha estação ferroviária. Abandonada. Morta.

De longe, uns quinhentos metros, eu reconheci a porta de correr onde trabalhava meu avô e a plataforma onde cansei de correr. E a área de manobras, onde brincava de bandido e mocinho com outros meninos. Vi também vagões enferrujados pelo tempo e trilhos e dormentes há muito sem uso cima.

Minto: um, apenas um, era usado; por onde passa o trem-cargueiro, que, de madrugada, toca seu apito acordando a população trabalhadora da cidade. Que mora ali porque o aluguel é mais barato - quem serão os donos dessas casinhas dos velhos ferroviários, hoje?

- Vamos até lá - ela me disse.

Não quis, insistiu. Percebeu que eu estava emocionado, atropelado abruptamente por remotas lembranças. E, como compete a toda mulher, quis testar até onde ia minha resistência.

Caminhamos até a frente do elefante branco, o prédio da estação. O velho relógio, parado em 9h15. De que dia, de que ano? Mostrei-lhe a janela onde meu pai trabalhou boa parte de sua vida, a portinha onde meu avô se aposentou, já doente para morrer. A porta principal estava fechada, mas os vidros quebrados nos permitiram olhar o saguão. Apontei-lhe a banca de revistas da Dalva, o restaurante e os guichês. Muita sujeira e móveis quebrados, espalhados, empilhados. Alguns bancos, entretanto, resistiram bravamente.

Adiante, vagões enferrujados e uma enorme ponte inacabada, prevista para ligar dois bairros populosos. Dinheiro público atirado no lixo, talvez até dinheiro internacional mal-utilizado. Não sei, nem quis saber.

Na praça, em frente ao elefante branco, antes um formigueiro humano, tanta gente transitava, hotéis sem hóspedes, lanchonete às moscas, um quiosque policial (que não havia no meu tempo), casas comerciais modestas, fechadas naquela tarde, sendo que outrora viviam abertas, sábados, domingos e feriados. Porque a praça fervilhava na pulsação da estação.

Minha namorada perguntou se eu, calado desde o viaduto e só me comunicando por grunhidos e monossílabos, estava me reencontrando com o menino que fui um dia. Sorri, apenas.

Não soube como lhe explicar que estava sentindo saudades de um tempo onde aquela pequena geografia urbana era um local aonde as pessoas, como os trens, chegavam e partiam todos os dias, levando e trazendo com elas histórias e sonhos.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).

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