Quem somos
Localize sua turma
Galeria de fotos
Cadastre-se
Associado Efetivo
Netmail
Seguro de vida
Porque hoje é sexta-feira
Recrutamento e seleção
Links interessantes
Fale conosco


A serenata pela culatra
(*) Diorindo Lopes Júnior

Tenho um primo em Bauru, o Jorge, que não se atreve a cantar nem debaixo do chuveiro - sob pena de os vizinhos chamarem a polícia; isso, se a mulher e as filhas não estiverem em casa. Do contrário, elas mesmas chamam.

Uma vez, ele tentou ninar a mais nova só cantarolando, mas bastou o "hum-hum..." para a pequena chorar uns quatro dias, sem parar. Deve ser uma das únicas adolescentes que não responde perguntas com o aborrecido "hum-hum...", um clássico no linguajar desta tribo.

Ainda menino, minha tia quis matriculá-lo no coral infantil da igreja. Pois bastou começar o primeiro ensaio e a voluntária entrou em licença médica, para cuidar dos ouvidos prejudicados. Houve uma vez em que segurou um violão esquecido numa poltrona e o instrumento, desde então, jamais pôde ser afinado. Dizem, os implicantes, que meu primo Jorge faz desafinar até sino de catedral e, na fanfarra da escola, o máximo que lhe permitiam era carregar a bandeira com o brasão da banda.

Mas, em que pese este histórico cômico, já adolescente, meu primo Jorge organizou uma serenata para a menina mais cobiçada do colégio. Convenceu um colega cantante e tocante de violão a ajudá-lo na empreitada. Um sujeito muito bom. Meu primo Jorge cuidaria apenas de ler um poema que copiara de um livro de Vinícius; livro meu, aliás.

Quando soube, decidi que não perderia aquele espetáculo por nada. Nem que chovesse canivetes ou as moças da Eny resolvessem fazer caridade.

Pouco mais de dez da noite de uma quinta-feira, a garota apareceu na janela com cara de sono e um mau humor que prometia bater e matar. A leitura do poema não fez qualquer sucesso, mas o talento vocal/instrumental do cantante e tocante encantaram o pai da moça, que nos convidou a entrar. A mãe, também encantada, fritou uns pastéis. O pai abriu umas cervejas e a cantoria rolou até meia-noite e meia, depois que o rapaz começou a atender os inúmeros "toca aquela", "lembra dessa?" e eu até pensei que algum vizinho chato fosse reclamar.

O cantante e tocante, já à vontade, falante e muito sussurrante, conquistou para sempre a musa da serenata - casaram-se nem três anos depois. Fiquei tricotando umas receitas de minha mãe com a mãe da moça que meu primo pretendia namorar, enquanto meu primo combinava uma pescaria no Pantanal com o futuro sogro do cantante e tocante.

São amigos até hoje, ele e o velho. De Jorge aparecer sem avisar e ficar para jantar.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

Antigos Alunos Faap © Copyright 1997-2011
Todos os direitos reservados.
Gerenciamento