| Sapatos velhos
(*) Diorindo Lopes Júnior
Como fazia sempre, uma tarde meu avô me levou à cidade. Ele já andava bastante doente com o Chagas no coração e eu, oito para nove anos, nada tinha a fazer na cidade, exceto acompanhá-lo - para procurar ajuda, caso seu coração vacilasse.
Chuparia um sorvete misto, de três bolas, e ainda compraria um sacão de pipoca salgada para comer tomando guaraná-caçula de canudinho, um menor de pipoca doce, mais um saquinho de balas Chita e 7 Belo.
Era bom demais passear com meu avô. Eu usava calças curtas e ele não gostava que eu andasse com as mãos nos bolsos. As preferia nas costas ou ao lado do corpo. Não me perguntem por quê.
Naquela tarde, encontrou-se com uma senhora e mandou-me esperá-lo num banco da praça. De onde fiquei, vi que ele a beijou rapidamente e a acarinhou, que ela o abraçou, deu-lhe algo - que não vi o que era - e foi embora chorando.
Quando voltamos para casa, meu avô me disse que não contasse nada para minha mãe, menos ainda para minha avó. Menino bobo, perguntei por quê.
- Porque meus sapatos estão pedindo e eles são muito mais velhos que você.
Nunca ouvi falar de sapatos pedintes, mas uma prudente boa voz interior recomendou-me não contrariar o pedido dos sapatos velhos de meu avô.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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