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O sanfoneiro cabeçudo
(*) Diorindo Lopes Júnior
Eu não me lembro seu nome, nem de que cidade vinha, só que era do interior do Piauí e, para nós, meninos do terceiro ano primário, virou Piau.
Baixinho de cabeça grande, falador, virou alvo de chacotas da turma - até o dia em que se enfezou e meteu a mão no maior de todos. Então, ganhou respeito.
As aulas começaram no final de fevereiro, ele chegou na metade de abril, teve dificuldades nas notas, mas a professora substituta o ajudou, mais a irmã, menorzinha e do primeiro ano - e bem menos cabeçuda.
O pai, juiz de direito em começo de carreira, veio à cidade cobrir licença do titular. A mãe, advogada, se afastou da Lei e abriu um pequeno restaurante de comidas a princípio estranhas para nós, mas de se virar fã depois da primeira garfada.
Por ser baixinho e muito folgado, Piau levou muito cascudo na cabeça grande, mas nunca passou recibo das pancadas. Mesmo chorando de dor, enfrentava, xingava pai e mãe, desafiava pra mais briga. Apesar do pouco tamanho, não tinha noção do perigo.
Quando junho chegou e a professora falou em festa junina, pediu licença e disse que não era bom em dançar, mas podia tocar sanfona. Tocar sanfona?
A classe quase se urinou de tanto rir. O cabeçudo tocando sanfona?! Só rindo mesmo.
Mas aí, leitor, depois de anos, você aprende como a vida é, como funciona, né. Pois não é que, na quinta-feira, antes da festa da escola na sexta, teve abertura da quermesse (para as obras...) da igreja? E quem é que estava lá, de sanfoneiro, com o escrivão na zabumba e o delegado desafinando no triângulo? O jovem juiz de Direito, pai do cabeçudo Piau, meu colega de classe.
Tocou forró, maxixe, xote, fricote, fogueira de São João, cai-cai balão, sei lá o quê mais. Meu pai dançou com minha mãe e meu avô com minha avó, a mãe de Piau ensinou outras senhoras a mexer o corpo, até o padre forrozou com umas viúvas, bom safado de padre.
No dia seguinte, o da festa na escola, ninguém chamou o cabeçudo de cabeçudo quando ele chegou carregando a caixa maior que ele, com a sanfona do pai dentro. Nem gozou a imagem do cabeçudo tocando, não tão bem quanto o pai, mas até que bem, só com a imensa cabeçona atrás do instrumento e as pernas finas balançando no banquinho.
Hoje eu penso que foram momentos emocionantes, até alunos que não eram da quadrilha dançaram ao som da sanfona. E pais e mães, professoras, todo mundo deu sua reboladinha de São João.
Tivemos de nos curvar: o cabeçudo Piau mandou bem, tocando com muita intimidade a sanfona do pai.
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).
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