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Da arte de roubar frutas
(*) Diorindo Lopes Júnior

Um domingo, eu cheguei na casa de meu avô e o encontrei entretido em serrar a ponta de um bambu seco, um bambu de uns três metros, pelo menos. Assuntei o que ia fazer.

- Roubar abiu da tua tia, aquela bisca!

Minha "tia", na verdade, era minha tia-avó, irmã de meu avô. E irmã mais nova. Vizinha de cerca, mas com quem ele não se dava havia anos. Meu avô também tinha um pé de abiu no quintal, e que dava muito, mas, só pra futricar, invadia a propriedade da outra.

Notei uma latinha pequena de massa de tomate e sugeri que usasse uma de palmito, bem maior. Com ela, além de roubar os abius de minha tia, poderia pegar outras frutas de seu próprio quintal, romãs, mangas, carambolas e até mamão. E no seu quintal não faltavam frutas, de melão e abacaxis, até jaca tinha.

Ele me olhou, meio que me medindo, muito mais que altura. Acho que eu tinha uns onze anos e ele já estava bastante doente do coração. Passou a mão em minha cabeça e acariciou longamente meu rosto.

- Você nasceu muito clarinho, mas esse teu furo no queixo não nega que saiu à minha raça, pertence à minha dinastia... - falou, com um orgulho muito dele.

Vibrei com esta declaração e com ele fui roubar abiu do quintal de minha tia-avó. Que, quando me viu encarrapitado na cerca, cutucando sua árvore com o bambu de lata na ponta, berrou lá de sua cozinha: - O que é que você esta fazendo aí, menino?!

- Ele está me ajudando a roubar abiu, não está vendo, não, sua besta?! E volte já pra dentro, lambisgóia, senão eu te taco uma pedra!

Roubamos uns trinta abius, boa sobremesa para a galinha caipira que minha avó estava cozinhando devagarzinho no fogão a lenha, numa panela de barro.

Meu avô pegou um, mordeu e cuspiu fora.

- Está amargo! Essa minha irmã não presta mesmo pra nada! Nem pra plantar um pé de abiu decente pra valer a pena de a gente roubar - e mandou minha avó jogar tudo no lixo.

Não falei nada para não contrariá-lo, mas tinha chupado uns seis ou sete enquanto os colhia e todos me pareceram bastante doces.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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