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O
Resgate de meu Hino
(*) Diorindo Lopes Júnior
Quando fiz 6
anos, em 1964, meus pais me matricularam em uma escola que
não mais existe, Cursos Brasil, em Bauru, interior
de São Paulo, cuja diretora-proprietária, a
i-nesquecível professora Gilda Improtta, sempre nos
fazia ficar perfilados, meninas à frente, meninos atrás,
e cantar o Hino Nacional. Inclusive os que não sabiam
ler direito ou com-preender as palavras ainda hoje um tanto
estranhas aos ouvidos, eu no meio. Pessoalmente, dona Gilda
conferia nossos uniformes (marrom e branco) e reclamava também
pessoalmen-te com nossos pais quando não nos apresentávamos
'nos conformes'. Fiz ginásio e colégio (lembram-se?)
em outras escolas, vim estudar em São Paulo, quando
fiquei sabendo da ditadura, de como ela manipulava os símbolos
pátrios e nunca mais o cantei. Subjugado pela força
bélica, sim; tocado feito gado, nunca.
Um dia, já jornalista, o dono de meu jornal me mandou
cobrir um comício na Praça da Sé, dia
25 de janeiro de 84, feriado paulistano, aniversário
de Tom Jobim. Não gostei, planejava passar o feriado
com alguma namorada, mas fui, bufando é verdade, mas
fui.
Quem paga, manda
e quem recebe obedece. É o mais sensato.
Era o primeiro
comício das Diretas Já, em São Paulo.
O então governador Franco Montoro mandou liberar as
catracas do metrô, a praça estava lotada, centenas
de bandeiras partidárias e milhares de militantes,
os jornalistas ficaram em um palanque "um degrau"
abaixo do palanque principal, quem 'pilotava' a festa era
o querido Osmar Santos, que deu meu primeiro emprego aqui.
Fiquei impressionado (arrepiado) com a multidão e com
os gritos em palavras de ordem, "um,dois, três,
quatro, cinco mil, queremos eleger o presiden-te do Brasil!"
(esta, trago nos ouvidos até hoje, e me dá um
nó na garganta quando nela penso), vendo de pertinho
figuras ilustres da política, música, teatro,
letras, tv, rádio, pare-cia que todo mundo importante
estava ali. O palanque dava pinta de desabar, tamanha a quantidade
de gente se espremendo ali, mas não caiu.
De repente, o
convite para cantar o Hino Nacional. Instintivamente, na hora,
perfilei-me como no tempo em que dona Gilda ordenava, e também
cantei.
Não errei
um único verso, mas mais mesmo eu me emocionei com
o público berrando cada um.
Hoje, é
cantado em tudo que é lugar, até em inauguração
de lojas, crianças parecem competir quem o berra mais
alto, gosto disso. Dizem os descontentes que o estão
banali-zando, estão equivocados.
O Hino é a manifestação sonora do amor
do cidadão pela Pátria.
Voltei ao jornal,
redação vazia, o dono à minha espera.
"Além da matéria, escreva também
o editorial de amanhã", determinou. "A favor
ou contra?", perguntei. "Se o meu jornal algum dia
for a favor de qualquer governo, será porque eu já
estarei enterrado. O se-nhor nunca mais me pergunte isso".
Lição é lição, e quem paga
sempre tem razão. Pensei em escrever sobre o Hino,
sobre seu "resgate" dentro de mim, mas não
conse-gui. Lembrei-me de dona Gilda e quase choro. Seria lamentável,
na frente de meu patrão.
Gosto de música,
mais MPB e blues, a cantora e compositora Graziella Hessel
acaba de lançar um CD, "Grazie a Dio", com
14 letras minhas, mas é o Hino Nacional é a
que mais mexe comigo. Que renova meu orgulho de ser brasileiro.
(*)
Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e é autor de O Sol em Capricórnio
(Atual/Saraiva Editora) e Cesta de 3 (Alis Editora, BH)
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