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Reflexões pendulares entre o muito antigo e o inusitadamente novo (6/jul/2004)
AOL - Negócios & Empresas - Prof. Henrique Vailati Neto

Por Henrique Vailati Neto

Dentre as primeiras questões que o bom método impõe a um trabalho sério está aquela que nos obriga a inventariar nossas limitações culturais quanto ao tema e, neste caso, as cargas históricas que pesam sobre a idéia de liderança são profundas, seculares e, muitas vezes, inconscientes por ocuparem espaços místico e míticos em nosso acervo civilizatório.

Nossas raízes judaico-cristãs nos remetem compulsivamente à concepção do líder herói, redentor, envolvido em uma aura de mistério, carisma e qualidades inatas, intransferíveis e marcadas pelo divino sopro.

É bastante emblemático o rico mercado que envolve o mundo das personalidades, das grandes figuras, algumas das quais são fontes garantidas de lucros para quem, na falta de um novo tema para uma reportagem, livro, programa e que não queira correr riscos acaba nos braços de Napoleão, Júlio César, Gandhi, Hitler, São Francisco, Fidel, Einstein, Morita, Bill Gates, Cleópatra, Diana Spencer e, não fosse a propositada contida vontade de espicaçar o leitor, continuaríamos a enumerar personalidades que povoaram e povoam o imaginário de todos nós.

Pensar em liderança, para nós que vivemos a realidade daqueles que formam gestores, é obrigação de olhar para o problema como isentos, mas conscientes das cargas culturais que nos geraram, é pensar o novo sem desconsiderar atavismos mas neutralizando-os naquilo em que nos limitam.

A discreta gênese de um novo ser

A discussão ao redor da liderança, ainda que tenha se infiltrado por canais subterrâneos, ganhou novas cores, conseguiu encontrar um novo tom, um novo ritmo. Surge um líder mais discreto, capaz de congregar, catalisar e não se fazer impositivo. Seu primeiro desafio será o de coordenar, estimular e orientar grupos, fazendo a tradução da conversa entre o mundo globalizado e a realidade singular do cotidiano.

Falar do líder e de seu educar é lembrar que a ele caberá a tarefa de estabelecer esse diálogo de grandezas díspares. Será amanhecer o dia sem ter dormido, de olho nas bolsas do oriente, tendo plena atenção às peculiaridades de um Brasil que ainda é ímpar, que ainda é a referência maior do nosso funcionário, de nós mesmos.

Liderança e mudança: uma rima acidental para um desafio crucial

Viver e, sobretudo, liderar nesse tempo de mudanças absolutas e relativas é ter a necessária atenção para o fato de que os alicerces epistemológicos das ciências tiveram sua integridade solapada pelo efêmero, pela transitoriedade que brota da necessidade de darmos uma nova lógica para esse tempo de mudanças e permanências, de ferramentas revolucionárias ainda incapazes de desbastar as arestas de problemas históricos .

E nesse contexto de instrumentos desconcertantemente novos e nem sempre eficazes, colocamos a relação de "novo líder" e seus liderados pela intermediação de toda a parafernália eletrônico-digital-informacional de que mais do que dispomos, somos compelidos a usar.

É muito bom, a nós que apontamos um dia lápis com gilete e que fomos acusados (com justíssima razão) de resistir ao computador, verificar que a fase fetiche do mundo digital começa a ser, ainda que lentamente, superada levando o homem a readquirir a consciência de que ferramenta, por mais sofisticada que seja, é meio. Qualquer confusão pode invalidar seu bom uso.

Se temos a nossos favor a rapidez de alcance e riqueza da rede, a capacidade de memória e ordenação de nossos computadores, nos resta perceber que ficamos liberados para o mais nobre, ficamos disponíveis para aquelas ações que não se submetem à dureza burra das máquinas. Ficamos condenados a tratar da sofisticada, intrincada, complexa e frustrante arquitetura das formações humanas.

Nesse sentido, é muito denotativo perceber como os estudiosos se voltam para características de liderança que privilegiam qualidades sutis do trato humano, da gerência de pessoas em detrimento daquelas antigas e marciais que se referiam aos exércitos de burocratas-operários.

Ainda com muito cuidado, assistimos os inovadores falando das necessidades de se pensar homem e cultura na adoção de ferramentas e sistemas operacionais. O trabalho do gestor em adaptar as novas ferramentas ao seu estilo de gerência e às necessidades da tarefa não deve, em nenhum momento, deixar de considerar uma sensibilidade aos efeitos indesejáveis advindos de uma intermediação excessiva ou inadequada, já que redes podemos desligar ou não acessar, mas pessoas pressupõem um tato muito mais caro e irreversível.

Falando de características emblemáticas

Os contornos inusitados desse "líder pós-heróico" são resultado das demandas de organizações que se exigem flexíveis, com estruturas hierárquicas horizontais. São reflexos de atividades em processo constante de reinvenção, de tal modo a levar os estudiosos a recorrerem, entre outras fontes teóricas, à Teoria do Caos na busca de sistemas altamente flexíveis, informais e irrestritos.

O constatar da mutabilidade de cenários, da conseqüente exaustão dos modelos tradicionais de planejamento e da imprevisibilidade do líder atual faz com que alguns estudiosos, numa declarada demonstração de audácia, coloquem os visionários entre aqueles a quem competira coordenar grupos para objetivos e horizontes móveis.

Um "modelo"multifacetado

De titânico e impávido condutor de gente, o líder aparece como alguém que lidera como "promotor do sucesso alheio", posição muito mais nobre mas, sem discussão, muito mais próxima da humanidade preterida no antigo modo.
Todas as vezes em que me debrucei sobre a questão da liderança fiquei com um travo amargo na margem de minhas preocupações: falamos daqueles predestinados a comandar hoje, mesmo com um perfil mais discreto e humilde.

Esses líderes são pessoas capazes de assumir papéis de comando, fazendo com que os tímidos e humildes "carregadores de piano" que tanto elogiamos mas cujos macacões nunca quisemos vestir em nossos filhos, passem a ser aquilo que sempre foram mas com a dignidade e importância constatada: os "trabalhadores do conhecimento".

Podemos observar a fria lápide dos "grandes carismas" mortos por um completo colapso na capacidade de se gerar as liturgias de mistério e personalismo, que alimentaram os mitos de outrora e que, aniquilados pela impiedosa exposição da mídia , sucumbiram pela sua incapacidade de viver sua própria humanidade.

Enfim, educar para a liderança ou para as lideranças será, efetivamente, educar e não mais formar alguns bem nascidos. De outro lado, fica claro que se pode e se deverá liderar pessoas que sabem mais do que os líderes o que, se quisermos dar um pouco de trato à memória, nada mais é do que a essência do que os gregos conceberam como o que chamamos de democracia da época de Péricles século XV a.C.

Henrique Vailati Neto

Diretor da Faculdade de Administração da FAAP, titular das cadeiras de Ciência Politica e Sociologia Geral, é formado em História e Pedagogia, com especialização em História Politica do Brasil. Faz mestrado em Administração na área de Novas Tecnologias e Organização

fonte: http://noticias.aol.com.br/negocios/estrategia/2004/07/0007.adp

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