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Um bicho-do-mato metido a Dom Quixote
(*) Diorindo Lopes Júnior
Às vezes, eu me penso como um Dom Quixote que, cego pela loucura, enxergava em todos os seus delírios uma Dulcinéia que não havia. De moinhos de vento que viravam monstros prefiro não falar - é muito mais seguro, podem me confinar.
Não sou caso de internação em área de isolamento de hospitais psiquiátricos. Minha Dulcinéia é uma quimera, e eu sei o significado de quimera. Ao mesmo tempo, confundo os sonhos que sonho com loucuras aborrescentes e me vejo o menino que fui com muitas idéias na cabeça e sem um rumo para seguir - ou perseguir, como preferem alguns.
Sou um bicho-do-mato, embora tenha crescido em uma cidade que também cresceu em torno de uma ferrovia que, hoje, nada acrescenta à cidade, em ao seu sossego. Reduzida a via de passagem ou ponto de embarque para exportações, atrapalha o conciliar do sono de honestos trabalhadores que pegam pesado batente logo pela manhã e moram em suas imediações.
Misturo assuntos e, com certeza, confundo a generosidade do leitor e a paciência da gentil leitora, mas é um jeito que tenho de provocar reflexões. Mais que palavra de ordem, refletir é preciso.
Um dia, alguém muito irresponsável predisse que eu seria muito bom em provocações.
Vivemos um tempo de cinismos descarados, uma concorrência cada vez mais agressiva e desleal, o conceito de lealdade caiu em desuso nos dicionários desses tempos ditos modernos, onde a verdade perdeu completamente seu sentido primeiro e trair tornou-se sinônimo de ser esperto, de saber levar vantagem.
Os valores civis, primordiais para estabelecer os princípios de convivência entre pessoas foram, simplesmente, atirados a uma lata de lixo.
Por isso, atrevo-me a sugerir urgente leitura de Dom Quixote de la Mancha, belíssima e muito atual história de Miguel de Cervantes.
Para refletir ou enlouquecer e, enlouquecendo, ser abençoado com a crença em todos os sonhos.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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