| Prestidigitadores
mambembes
A
Medida Provisória da Cofins expõe o que a oposição
já está rouca de gritar e que o governo sempre
nega: o PT está impondo ao país o maior aumento
de carga tributária por meio de ações
absolutamente desligadas de aspectos ideológicos ou
doutrinários. São ações sem lógica,
adotadas por puro oportunismo arrecadatório. Já
os seus efeitos são predatórios e aumentam o
desemprego, levando à indigência homens e mulheres
que não querem esmolas, querem trabalho e salário.
Ou será, por acaso, isso o que o PT deseja? À
medida que fui lendo essa MP da Cofins, tive uma sensação
que há muito não experimentava. Desde quando,
ainda menino, assistia aos antigos e saudosos mágicos
de circo nos seus patéticos números de prestidigitação.
Os eternos truques dos coelhos que saíam das cartolas
e dos pombos retirados dos bolsos dos fraques espaçosos.
Nos picadeiros, estava claro que tudo era ilusão, resultado
da manipulação vertiginosa dos mágicos,
que jamais falhavam. Lembro-me da minha roda de amigos discutindo
as hipóteses dos truques, que nunca adivinhávamos,
apenas sabíamos que eram truques. Mas os velhos mágicos,
admiráveis profissionais, nunca falhavam, jamais eram
desmascarados. Pois esse triste governo Lula, paupérrimo
de idéias e que só vive de propaganda, reduzindo
seu prometido “espetáculo de crescimento”
a patéticos números de prestidigitação,
produz o contrário dos efeitos obtidos pelos velhos
mágicos. Os truques do governo do PT, apesar de trombeteados
por marqueteiros, podem ser facilmente desmoralizados. A MP
da Cofins, anunciada como iniciativa prodigiosa para evitar
a cobrança em cascata desse tributo, é um texto
grotesco, longo. Contém 69 artigos, ou seja, é
do tamanho de um código tributário. Qualquer
leitor atento, mesmo sem ser especialista, observará
suas incongruências, equívocos, casuísmos
e, principalmente, injustiças. Os coelhos e pombos
permeiam toda a MP e desnudam o seu caráter de lei
destinada a, pura e simplesmente, aumentar impostos. Não
acontecem os prometidos prodígios de racionalização
e, até, de redução dos tributos, de justiça
fiscal, de modernização da máquina tributária,
fim dos recolhimentos em cascata dessa contribuição,
considerada um dos mais equivocados e malconcebidos tributos
a que temos que nos submeter. Como se não bastasse
a classificação cavilosa de “contribuição”
(que só é adotada porque as “contribuições”,
ao contrário dos impostos, não são partilhadas
pela União com estados e municípios, o que o
governo quer evitar) a Cofins e o PIS-Pasep são considerados,
sob todos os aspectos, tributos desqualificados, arranjos
de ocasião, que surgiram em ocasiões de crise
de caixa do governo e se eternizaram pois, no Brasil, nenhum
tributo jamais foi extinto depois de ser cobrado uma vez.
Lembro-me de quando foi aprovada a CPMF, graças única
e exclusivamente ao empenho e prestígio pessoal do
doutor Adib Jatene, então ministro da Saúde.
Todos os técnicos eram contra, a malsinavam e deploravam.
Hoje, quem será capaz de dispensá-la? Pois a
Cofins, que é por natureza cumulativa e pretendia-se
salvá-la, tornando-a não-cumulativa —
apenas uma prestidigitação — resistiu
ao truque, como demonstrou uma impressionante avaliação
do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário,
que testou o impacto da cobrança da Cofins modificada
pela MP em 93 setores e concluiu que, em 67 deles, haverá
aumento de carga tributária, com impacto nos preços
de produtos e serviços entre 6,31% e 8,39%. Ora, aumentar
impostos no momento delicado da economia nacional, em plena
recessão, com 4,5 milhões de desempregados,
é uma insanidade. E fazê-lo na pretensão
de estar enganando a sociedade, pois o governo do PT insiste
no realejo surrado de que não há aumento de
carga tributária, é uma aventura da maior irresponsabilidade.
Já demonstramos, e ninguém tem mais dúvidas,
que a reforma tributária também não passa
de uma encenação, pois o governo só queria
mesmo era promover a continuidade da CPMF e a desregulamentação
dos fundos constitucionais, aproveitando a mão na massa
para aumentar mais 13 impostos, em grande parte destinados
a facilitar a negociação pela sua aprovação
no Congresso, pois iriam beneficiar estados e municípios.
Essa MP da Cofins é um número de prestidigitação
mambembe que falhou, expõe o governo e compromete a
ordem econômica e seus aparentes beneficiários.
Nunca se deve esquecer que a irracionalidade fiscal tem sempre
o efeito bumerangue. Volta sempre e atinge quem se imaginava
a salvo.
Fonte: O Globo - Jorge Bornhausen Data
da publicação: 21/11/2003
|