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De porcos e chuchus
(*) Diorindo Lopes Júnior

Bem lá embaixo, no fim da minha rua, morava uma família esquisita. Seu Zé Martelo, crioulo como meu avô, era mecânico na ferrovia. Casado com dona Ismênia, uma brancona de cabelos claros, refugiada de uma republiqueta russa de nome mais esquisito ainda.

Tinham cinco filhos, duas menininhas mulatas, dois meninos escurinhos e o do meio, Benício, que tinha olhos claros e era amarelo, da cabeça aos pés, e a gente chamava de nego-aço e sarará e haveria gente que duvidaria da paternidade não fosse Benício, nariz e beiço, a cara escarrada de seu Zé Martelo.

Benício estudava na escola municipal, onde levava e trazia as irmãs. Os irmãos já trabalhavam e estudavam à noite. Dona Ismênia fazia doces russos e bordava roupas de cama e mesa. Em agosto, seu Zé Martelo botava uns oitenta ou noventa bacorinhos no quintal; algumas vezes, pra mais de cem, cento e quarenta. Pra engordar pro Natal.

Não era um quintal lá muito grande e a gente até podia imaginar a fedentina da porcalhada. Bem, até tinha alguma fedentina, mas dona Ismênia, as meninas mulatinhas e Benício corriam a terra duas ou três vezes por dia, armados de latas e pequenas pás. Nos finais de tarde, todos os dias, um verdureiro aparecia de carroça e comprava toda a porcaria da porcalhada para adubar a horta. Pagava em dinheiro ou com restos verdes que não tinha vendido, legumes, umas espigas de milho.

Todo dia 20 de dezembro, seu Zé Martelo tirava férias na ferrovia, armava uma mesa com cavaletes na varanda e começava a matança dos leitões, até os filhos mais velhos ajudavam com tachos de água quente para depilar e limpeza interna dos bichos. Seu Zé Martelo só vendia a carcaça, sempre muito gorda na traseira, até pururuca se fazia; os miúdos todos, a barrigada e até o sangue, eram aproveitado por dona Ismênia, que guardava tudo numas latas com banha.

Numa das vezes em que fui com meu pai comprar um bicho para assar no Natal, seu Zé Martelo interrompeu o trabalho e chamou meu pai de lado para experimentar uma cachaça da boa. Encontrei Benício no quintal, trepado numa escada no que deveria ser uma parreira, mas eram apenas chuchus. Lá do alto, fatiava e distribuía para a porcalhada em terra.

Jogávamos bola na frente de minha casa, veio ter comigo. Disse-me que o chuchu engordava os porcos mais depressa, por causa dumas vitaminas - A, B e C, como seu Zé Martelo havia ensinado. Não entendi.

¾ Água, bagaço e casca - ele me explicou, rindo.
Ri também. Já odiava de morte esse tal de chuchu.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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