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O pinel de pontaria quase boa
(*) Diorindo Lopes Júnior

Não sei se já contei de um garoto que morava perto de minha casa, o Dudu. Baixinho, gordinho, tinha uns quinze anos, mas fazia a barba desde os onze. Pinel de jogar botão sozinho, cantar o Hino Nacional inteiro, narrar, apitar e comemorar os gols.

Uma noite, estávamos brincando de salva-esconde e Dudu ficou no pique. O combinado era contar até cinqüenta, mas para ele deixávamos por vinte - ele sempre se confundia entre o nove e o doze. Corri atrás de um fusca, Hudson e Hélder ficaram debaixo de um caminhão. Laurinho trepou na árvore na frente da casa de Hudson e Hélder.

De onde estávamos, podíamos ver Dudu no pique, debaixo do único poste aceso no quarteirão.

Laurinho podia ter agilidade de macaco, mas nenhuma massa cinzenta entre as orelhas.

¾ Laurinho em cima da árvore do Hudson, um, dois, três! - Dudu era pinel, mas não era cego e viu o rabo do macaco balançando.

O combinado era esse: acusado, entregar-se no ato. Só que Laurinho nunca foi de cumprir os combinados e continuou empoleirado no galho.

¾ Uh, uh! Uh, uh! - pior, além das costumeiras macaquices, resolveu imitar corujas.

¾ Laurinho em cima da árvore do Hudson, um, dois, três! - Dudu começou a perder a paciência.

¾ Uh, uh! Uh, uh!

Dudu atirou uma pedra e errou. Quero dizer, errou em Laurinho, mas acertou em cheio na porta de vidro da casa de Hudson - que pôs-se a correr para impedir Dudu de atirar a segunda.. Não deu tempo.

Na testa de Laurinho, que ainda berrou antes de despencar do galho e estatelar-se na calçada feito uma pizza - onde continuou a berrar. Sangrava na boca, na cabeça, no braço (fratura exposta) e não conseguia se levantar, apesar do esforço de seu Zé, pai de Hudson e Hélder. Os pais de Dudu e Laurinho, mais as mães, chegaram logo e quase se pegaram a tapas ao saberem do acontecido, mas dona Luísa, mãe de Hudson e Hélder, berrou que já tinha chamado a ambulância do PS e seu Zé berrou mais alto ainda que no prejuízo é que ele não ia ficar.

Nisso, tudo mundo se lembrou de Dudu, onde estava o causador da confusão? O achamos no beco, atrás de um latão de lixo. Quando se deu conta da... da asneira cometida, foi se esconder no quintal de dona Nice, mas não se lembrou do cachorro - daí as mordidas, os arranhados e a roupa em frangalhos.

¾ São apenas quarenta injeções anti-raiva na barriga, Dudu, uma por dia, vai se acostumar - Hudson não teve dó do choro do infeliz, que ainda não se livraria de uma baita pisa do pai, mal pisasse em casa.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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