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Brincando de rodar pião
(*) Diorindo Lopes Júnior
Naquele tempo, uma das diversões mais concorridas entre os meninos de minha rua era rodar pião.
Feito de madeira, tinha vários tamanhos, mas o formato de pêra fazia todos bastante parecidos. Piões novos precisavam ser amaciados, a ponta onde giravam era de prego e os rodávamos nas calçadas (para desespero de meu pai e dos vizinhos) até que se arredondassem e maltratassem menos a palma de nossas mãos. Até hoje tenho uma cicatriz na minha.
As fieiras também recebiam tratamento especial. Cera de velas, resina, cola, esmalte, laquê, valia tudo, mas nossos dedos indicadores e médios sempre sangravam - como a palma da mão - embora eu jure que as minhas cicatrizes sejam do muito uso de canetas.
Todo mundo tinha pelo menos uma habilidade, mas a mais praticada era lançar o pião e puxá-lo para a mão sem deixá-lo tocar no chão. Nessa arte, forçosamente reconheço: meu primo Jorge foi um dos melhores que já vi.
Capaz de lançar o pião por trás das costas ou entre as pernas e o bicho voltar à sua mão
Já meu amigo Marquinhos, cujos cabelos ainda eram negros e fartos e não ralos e brancos, que hoje ficam rosados quando o sangue lhe sobe à cabeça, era um verdadeiro desastre. Por não ser capaz de puxar um pião na mão, nunca era chamado para rachas de bata, uma espécie de jogo de futebol onde os piões eram os jogadores e chutavam uma bola de madeira.
Rejeitado por todos os meninos, Marquinhos ficava do lado do campinho, tentando aprender a puxar um pião. Numa tarde, não amarrou a fieira direito, o pião não voltou e minha testa estava na frente. O sangue escorreu para os olhos. Comecei a chorar: não estava enxergando nada. Marquinhos valentemente foi se esconder em sua casa, perto da linha dos trens.
Não nos falamos uns meses, mas voltamos às boas.
Dia desses, seu filho mais velho me contou que o pai ainda tenta aprender a puxar piões na frente de casa. Já quebrou telhas, vidraças, os pára-brisas de dois carros e um ônibus, a mulher berra-lhe muitas e boas, prega-lhe uns tabefes até, mas Marquinhos é um obstinado: não desiste nunca de puxar o pião na mão.
Quem sabe um dia.
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Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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