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O
perigo do crescimento eterno
São Paulo, 27 de Fevereiro de 2004 - C om o lançamento de
"Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem", Hugo Penteado deu à discussão
ambiental no Brasil um novo patamar ao basear toda sua argumentação
não nas costumeiras bandeiras desfraldadas pelos verdes, mas
sim ao dirigir sua crítica ao modelo de desenvolvimento dos
grandes países: "Não há crescimento econômico sem total desfiguração
dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra,
inclusive a dos homens, em total perigo". O autor, economista-chefe
do ABN AMRO Real, afirma que o grande problema se encontra
na obsessão do sistema em buscar crescer sem parar - mesmo
que o combustível venha de fontes finitas de abastecimento,
como a água. Ele alerta: "O risco econômico está na necessidade
de crescer quantitativamente a qualquer custo para garantir
a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado
financeiro, o previdenciário e o fiscal. Dado que o crescimento
econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico
e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência. O que
vamos ver nos próximos anos é uma enorme crise econômica que
pode acontecer muito antes da crise ecológica". Desde o lançamento
do livro, Penteado tem dado palestras em todo o País, aceitando
convites vindos de entidades de classe e universidades. A
seguir os principais trechos de sua entrevista exclusiva.
Qual a explicação do surgimento da Ecoeconomia ou Economia
Ecológica?
Hugo Penteado - Ao contrário do que muitos pensam, os principais
motivos de ela ter surgido não foi o buraco da camada de Ozônio
e sim os fracassos nas áreas social e ambiental, apesar da
enorme expansão econômica e do desenvolvimento dos últimos
anos. Hoje, os níveis de uso dos recursos finitos da Terra
são alarmantes. Recursos finitos leiam-se recursos naturais
como água e solo ou o equilíbrio climático-ecológico entre
as espécies vivas, sem o qual não sobreviveremos na Terra.
Lester Brown batizou esse fenômeno de aceleração histórica:
em um ano somos capazes de produzir mais bens e serviços que
desde o início da humanidade até a Segunda Guerra Mundial.
O Clube de Roma já alertava para esse fenômeno: o sistema
econômico está sendo submetido a um crescimento exponencial.
Alguém ainda vai ganhar um Prêmio Nobel ao provar que o território
americano tem um tamanho constante de 9,3 milhões de km²,
sobre o qual é impossível adicionar um fluxo de PIB de milhões
de carros, casas e coisas de forma crescente.
Gazeta Mercantil - O crescimento é impossível por causa do
tamanho do território?
Hugo Penteado - A escola Neoclássica resolveu o problema do
crescimento infinito pelos ganhos de eficiência e da substituição
infinita dos materiais da natureza pelo capital, mas Nicholas
Georgescu-Roegen avisa que não há outros fatores materiais
que não os da natureza. Além dessa enorme crítica, a escola
Neoclássica nunca resolveu o problema do espaço físico finito
em superfície. Isso mostra um profundo desconhecimento da
Física. Mas não importa. Para se ter uma idéia, se os Estados
Unidos crescerem o que Wall Street demanda que ele cresça,
em 10 anos ele irá adicionar 9 economias iguais ao Brasil
de hoje e a distância entre os ricos e pobres será maior do
que nunca. Crescer 9 Brasis num território constante de 9,3
milhões de km² é impossível. Por isso, estamos vivendo uma
crise de crescimento nos países ricos, com a qual todos irão
sofrer. Além desse crescimento não gerar empregos compatíveis
com o crescimento populacional absoluto, ele não gera empregos
permanentes nem fluxos permanentes. Esse erro teórico de ignorar
o espaço físico finito e manter um crescimento suicida colocou
as espécies animais e vegetais desse planeta na maior rota
de extinção em 65 milhões de anos, de forma totalmente antropogênica.
Stephen Jay Gould dizia que não se trata de um processo de
extinção natural de milhões de anos e sim de uma larga destruição
de habitats e de alterações no equilíbrio ecológico, além
da caça desenfreada. Hoje é aterrador perceber o que a espécie
humana está fazendo contra seus pares e essa é a maior prova
que não há ambiente para essa obsessão maníaca.
Gazeta Mercantil - A extinção da biodiversidade na Terra é
um problema econômico?
Hugo Penteado - Sim, está ligado ao nosso sistema econômico,
que pretende ampliar suas estruturas exponencialmente dentro
de um espaço finito como a Terra. O ser humano aparentemente
menospreza todas as formas de vida que não o seu próprio umbigo.
Nós não nos vemos mais como uma espécie animal imortal e sim
como indivíduos. Foi com essa visão individualista que Keynes
proferiu a sua famosa frase: "No longo prazo estaremos todos
mortos". Mas como uma espécie animal jamais estará morta,
o que vamos deixar então para as gerações futuras? Ora, o
crescimento econômico é um crime num espaço finito cujo equilíbrio
ecológico garante que a energia solar faça nossos corações
baterem e garante que o oxigênio seja produzido nos mares
e oceanos para todos respirarem. Veja o que está acontecendo
nos oceanos: 90% das populações dos grandes predadores foram
extintas; os corais, lares de grande parte das espécies oceânicas,
estão agonizando; as costas dos mares onde vivem e se reproduzem
peixes estão devastadas; 75% dos rios foram alterados; os
manguezais destruídos a uma alta velocidade. Não há crescimento
econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar
colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em
total perigo. Fala-se da destruição da Amazônia, mas ninguém
comenta que 99% das florestas dos Estados Unidos e da Europa
foram derrubadas e que para atender à demanda desses países
ricos, 75% das florestas tropicais já se foram. Apesar disso,
antes do perigo ecológico, há o perigo econômico.
Gazeta Mercantil - Como assim? Essa não é uma preocupação
meramente ecológica?
Hugo Penteado - De jeito nenhum. É impossível separar a economia
da ecologia e isso só foi possível através de uma série de
mitos e esses mitos impregnaram fortemente as teorias econômicas
que influenciam as decisões dos governos até hoje. O risco
econômico está na necessidade de crescer quantitativamente
a qualquer custo para garantir a saúde financeira de três
sistemas principais: o mercado financeiro, o previdenciário
e o fiscal. Dado que o crescimento econômico é impossível
do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas
estão fadados à falência. O que vamos ver nos próximos anos
é uma enorme crise econômica que pode acontecer muito antes
da crise ecológica. Os atrasos ecológicos, principalmente
na agricultura, são muito grandes, mas isso pode ser uma chance
para realinharmos nosso sistema para uma rota de equilíbrio,
onde valores humanos, sociais e ambientais passem a fazer
parte da equação.
Gazeta Mercantil - O crescimento populacional é um problema
ecológico ou econômico?
Hugo Penteado - kern -0.1ptAmbos, eu não acredito que o crescimento
populacional possa ser ignorado para a questão do crescimento.
Na equação de Solow ele é menosprezado dando espaço ao avanço
tecnológico, mas não acredito nisso, é mais um erro teórico.
Os países ricos estão preocupadíssimos com o baixo crescimento
populacional, pois as populações no mundo todo estão envelhecendo
e os custos com a previdência estão explodindo. As enormes
populações da China e da Índia mostram erradamente que podemos
ter enormes populações sem o menor problema, mas essa é uma
análise superficial, pois grande parte dessas populações vive
na miséria. De qualquer forma, o mito de espaço infinito para
tudo e todos fez com que a gente não se preocupasse com o
crescimento absoluto e olhasse apenas para o crescimento percentual
da população, que despencou nos últimos 30 anos. Os demógrafos
falam que a população vai estabilizar algum dia e ao mesmo
tempo toda a mídia e o governo estimulam um baby boom. Sem
crescimento populacional o sistema de previdência de repartição
simples vai falir; jamais deveria ter sido implementado um
sistema no mundo que não fosse o de capitalização. A dependência
financeira de uma geração de pessoas em relação a outra conta
com o mito de crescer sempre e cada vez mais, tanto do ponto
de vista populacional quanto material. Lógico que isso não
vai acontecer; lembre-se que a água e o solo são recursos
renováveis, porém finitos, que estão sendo duramente degradados.
Só 10% da água doce no mundo não está poluída hoje. Sem esse
crescimento, o sistema de repartição simples na previdência
não tem equilíbrio atuarial e já está sendo submetido a déficits
financeiros crescentes.
Gazeta Mercantil - Mas as taxas de fertilidade e de natalidade
estão despencando em todos os lugares; mesmo assim devemos
nos preocupar com população?
Hugo Penteado - Primeiro, essa queda nas taxas é uma restrição
econômica e financeira, quando olhamos o sistema previdenciário,
e nenhum governo quer isso. Segundo, Malthus não errou porque
relativizou a oferta de alimentos ao número de bocas; seu
maior erro foi não enxergar nenhum problema no crescimento
populacional, desde que a população crescesse lentamente.
Na verdade, hoje estamos adicionando quase 80 milhões de pessoas
por ano na Terra, o mesmo ritmo de crescimento absoluto de
30 anos atrás. Um mito fez os demógrafos darem ênfase aos
números relativos e não aos absolutos. Esses mitos fizeram
os economistas olharem também para o crescimento relativo
dos fluxos e não os absolutos. Ninguém se importa com o aumento
gigantesco de casas e veículos em termos absolutos, apenas
com a taxa de crescimento. Focamos em fluxos e em crescimento
relativo, as variáveis econômicas principais são fluxos. Isso
é fruto do mito que está colocando a humanidade numa rota
suicida, tanto do ponto de vista ecológico quanto econômico.
Gazeta Mercantil - Mas isso tudo é muito óbvio. Então o que
estamos fazendo para mudar as atuais tendências econômicas?
Hugo Penteado - Se olharmos a corrente política tradicional,
nada; e os problemas estão se amontoando. O modelo de crescer
a qualquer custo nunca esteve tão forte e é uma pregação messiânica
diária. A frase preferida de todos é temos que crescer, embora
isso não gere empregos de forma permanente, não seja sustentável
para as pessoas e com as condições do meio ambiente e da biosfera.
Essa obsessão maníaca por crescimento está disseminada, é
tratada de forma totalmente acrítica por todos. Quando abrimos
fronteiras agrícolas aqui no Brasil, deixamos de lembrar que
somos o único País com fronteira em expansão no mundo hoje.
Os economistas tradicionais comemoram, mas os economistas
ecológicos enxergam nisso uma atividade que está importando
para dentro do Brasil a insustentabilidade ambiental de países
ricos e de países populosos como a China, cujo déficit de
alimentos não só já existe, como vai aumentar. O USDA, departamento
agrícola americano, prevê déficit de produção de alimentos
nos Estados Unidos com a exaustão do aqüífero fóssil Ogallala
e na China com a perda de solo fértil. Isso tudo para alimentar
uma enorme população que ainda cresce 14 milhões por ano.
Esse déficit vai transformar a Amazônia numa enorme monocultura,
cujo déficit de empregos da última década no setor agrícola
brasileiro alcança milhões de trabalhadores. São atividades
insustentáveis e que expulsam o ser humano, para dizer o mínimo.
Mas não importa: há uma máxima em Filosofia pela qual quando
nossos interesses estão em jogo ficamos completamente cegos.
Não estamos na verdade vivendo uma crise ambiental e econômica
e sim uma enorme crise de valores. Não há tempo para discutir
mais essa crise, nem há mais tempo para fazer coisas erradas,
mas infelizmente, apesar da falta de tempo, continuamos presos
na obsessão pelo crescimento. Basta ver que as únicas políticas
econômicas que importam e que regem o mundo são as de demanda
(monetária e fiscal). Para as teorias econômicas tradicionais
podemos dizer que a produção de bens e serviços - mesmo que
submetida a um crescimento exponencial num espaço finito -
não sofre nenhuma restrição e praticamente brota do nada.
É com essa visão distorcida do mundo que estão sendo tomadas
decisões que influenciam a vida de todos, decisões que estão
nos levando em primeiro lugar para uma falência econômica
e em segundo lugar para um risco ecológico do qual ainda não
sabemos o tamanho dele.
(Gazeta Mercantil/Fim de Semana4)(Eduardo Burato)
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