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A noite em que o pé-de-valsa rebolou
(*) Diorindo Lopes Júnior

Ainda bem pequeno, eu já não gostava de cantigas de roda. Menos ainda de 'rodar ' cantando de mãos dadas ou de agachar no final da cantoria. Odiava de morte o "atirei o pau no gato" e preferia morrer a 'voltear ' quando "a galinha do vizinho botava ovo amarelinho". Ou de qualquer tonalidade do arco-íris.

Meu primo Jorge não só gostava como também sabia de cor todas as letras dessas cantigas. Meu desejo era o de lhe arrancar os olhos quando pedia a minha mãe que me obrigasse a brincar de dança-de-roda com ele, mais sua irmã e uma outra prima.

Eu ia emburrado, conhecia os castigos de minha mãe, mas descontava tropeçando de propósito, errando as letras e inventando palavras feias no lugar, desafinando também de propósito - minhas primas riam a rodo enquanto meu primo Jorge chorava cântaros.

Eu tinha seis ou sete anos, meu primo Jorge cinco ou seis. E o tempo passou voando.

Vieram os bailinhos de quinze anos e eu, mesmo dono do paletó e da gravata mais brilhantes entre todos os rapazes, raramente era convidado para dançar valsa com alguém - geralmente, só quando faltava um par e eu era oferecido à menina mais feinha, à mais novinha ou a que perdesse alguma aposta entre elas.

Já o patife de meu primo Jorge, além de rodopiar feito uma libélula nas valsas, rebolava e arrastava seus delicados pés de bode feito um toureiro espanhol na maioria dos ritmos de se dançar juntinho. Chegava a fazer fila de menina pedindo para dançar com ele e foi por essa época que comecei a notar uns instintos fratricidas corroendo minhas entranhas - houvesse percebido ainda nas cantigas de roda, meu primo Jorge certamente não teria chegado à puberdade.

Teve uma vez, porém, que seus atributos de bailarino por pouco não causam uma tragédia. Depois de girar e girar com a aniversariante, meu primo Jorge deu-se ao desfrute de rodopiar com a mãe da menina - que adorou, diga-se de passagem. Foi o bastante para enfurecer o pai da moça e marido da alegre senhora, que precisou ser contido para não encher as fuças de meu garboso primo Jorge com generosos bofetões.

Creio que meu primo Jorge nunca antes havia corrido tanto para salvar sua pele - e 'as partes '. Precisou pular quatro ou cinco muros, sob o risco de virar menina. O fulano queria... Bem, vocês sabem.

Só que naquela noite quem 'dançou ' mesmo foi este simpático e inocente azarado que vos escreve: o paletó que meu primo Jorge usava era meu e me foi devolvido imundo, puído nos cotovelos, com uma das mangas rasgada e as lapelas meladas com alguma coisa que cheirava muito, mas muito mal mesmo.

Do estado em que ficou minha linda e elegante gravata bordô eu prefiro nem falar.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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