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Pavor no campo de futebol
(*) Diorindo Lopes Júnior

Eu e os meninos de minha rua tínhamos entre nove e doze anos e pouco fôlego para correr um campo de futebol de várzea inteiro. Naquele tempo, era comum alguém abrir uma picada num matagal próximo a um bairro periférico, descobrir uma clareira, chamar uns amigos para limpar o terreno e fundar um time.

Perto de minha casa tinha uma meia dúzia. Desnivelados, esburacados, sem grama nenhuma ou marca de cal. Só as traves. Como disse, ainda tínhamos pouco fôlego e, se já era raro juntar onze meninos cujas mães deixassem jogar bola na rua, 22 então...

Uma tarde deu jogo. E perdemos de 6x0.

Nem bem tinha entrado em casa e minha mãe notou que eu estava sem camiseta. E tinha saído com uma, presente de uma tia. Lembrei-me: por ser nova, e branca, a tinha tirado e botado atrás de nosso seis vezes vazado gol. Com uma pedra em cima. Voltei correndo e torcendo para ninguém tê-la roubado.

O tempo escurecia depressa e a ventania era de chuva brava, podia sentir de perto o cheiro de terra molhada. Atravessar o mato exigiu-me cuidados, mas ao chegar ao campo aterrorizantemente deserto, vi o montinho branco da camiseta do outro lado, atrás do nosso vazado gol. Do jeitinho que eu a havia deixado.

Já devo ter mencionado que meu avô adorava contar histórias de fantasmas, assombrações, almas penadas e espíritos de gente morta que atazanavam a vida dos vivos. Na hora, lembrei-me delas. E também de que um moleque da minha idade havia morrido ali, naquele campo, ainda no ano anterior.

Goleiro, seu time atacava e ele ficou sozinho frente à trave, debaixo de um temporal. Um raio o torrou.

Na hora, vieram-me à mente imagens que ouvi de quem, na época, jurava ter visto o cadáver: olhos fora das órbitas, veias inchadas rompendo a pele, tripas escorrendo da barriga, boca, nariz e orelhas vazando sangue. Um fedor de levantar defunto de sete dias.

O temporal despencou de repente e a escuridão tomou conta de tudo. Atravessei o campo devagar, quase sem abrir os olhos. Deveria correr, pelo temor aos raios muitos que torravam, mas o medo, mais que a água gelada, congelava meus ossos e músculos.

E se um raio me escolhesse, daria tempo de sentir dor? Minha língua, torrada, caberia na boca? E meus olhos? Melhor mantê-los fechados, bem fechados.

Olhos e boca.

Os raios explodiam cada vez mais perto, eu os ouvia. E os trovões se multiplicavam, nem bem um acabava de rugir e três ou quatro começavam.

Nunca contaria aqueles momentos de absoluto pavor ao meu avô, ele sufocaria de tanto rir, velho debochado que era. Suava, apesar da chuva gelada. Minha pele estava fria, mas por dentro o corpo pelava.

O alívio veio no matagal. Nem os galhos baixos que mais pareciam garras ameaçadoras me assustaram. Atravessei o pequeno bosque de eucaliptos e ao ver a luz dos postes, soube que chegaria a salvo em casa

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).

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