Quem somos
Localize sua turma
Galeria de fotos
Cadastre-se
Associado Efetivo
Netmail
Seguro de vida
Porque hoje é sexta-feira
Recrutamento e seleção
Links interessantes
Fale conosco


Um bom papo
(*) Diorindo Lopes Júnior

Quem falou que ele não prestava nem mesmo pra ser jogado fora foi a própria mulher, e ela só não o punha pra fora de casa para que as quatro crianças não crescessem sem pai - quando o flagrou observando o deslizar da Valdete, uma sabidinha que abusava dos decotes, shorts colados e sainhas curtas.

Isso aconteceu no meio da rua, na frente do bar onde ficavam seus amigos e conhecidos.

O que me espantou não foi ele não lhe ter sentado a mão nas fuças, já que nesse tempo mulher só berrava com marido pra pedir socorro em caso de rato ou barata dentro de casa. O que me espantou mesmo foi ele ter ido para casa, arrumado a mala e entrado no primeiro trem noturno. Para onde, ninguém soube.

Na verdade, não foi para muito longe. Saltou na quinta estação e, nela mesmo, arrumou emprego num botequim que se pretendia "restaurante". Não que soubesse alguma coisa de cozinha, mas aprendera a fritar qualquer coisa para os filhos, então...

Então é que não era de todo um inútil absoluto.

Quatro filhos para sustentar, mandava um dinheirinho para a mulher que o escorraçara. Sem que soubesse de onde. Não era da ferrovia, mas tinha amigos nela; um ou outro cuidava da entrega, sem perguntar nada a um ou falar coisa alguma a outro.

Um juiz, que não entendia nada de culinária, mas gostava muito de comer, e comer de muito, o convidou para cozinhar em sua casa. Principalmente nos domingos, já que aos sábados ele exigiu folga.

Combinou com a dona da pensão um ganho a mais (ganho a mais é argumento que derruba até governos democraticamente eleitos...) pelo empréstimo de facas e outros talheres, combinou com o açougueiro um preço menor para costelas compradas em quantidade, descolou uns tijolos duma construção ali perto e montou uma pequena churrasqueira, comprou carvão e juntou uns galhos secos, emprestou uma mesa do botequim e, nos sábados, começou a assar costelas no meio da rua.

No primeiro, teve prejuízo, mas no segundo já pôde mandar algum para a vagaba que lhe expulsara de casa. E no terceiro mandou mais - tudo para os filhos, já que nem casado com ela ele era.

Lembrou-se disso quase um ano depois, quando já vivia com Lindimar, faz-tudo na casa do juiz. E também quando, algumas vezes, molhava o biscoito com a filha mais velha do mesmo juiz, herdeira do pai em todos os aspectos, a começar pelas gorduras.

Virou dono de churrascaria, estudou os filhos até a faculdade, teve outros e pretende dar-lhes, e se puder aos netos que já tem, o mesmo estudo. Continua solteiro no estado civil, nunca aprendeu a dirigir ou teve conta em banco e visita os filhos viajando de ônibus, já que os trens de passageiros deixaram de circular.

O conheci num dos trabalhos que me chamavam a fazer por aí. Um bom papo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

Antigos Alunos Faap © Copyright 1997-2012
Todos os direitos reservados.
Gerenciamento