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Pais que juntam pó e traças
(*) Diorindo Lopes Júnior

Foi há uns cinco ou seis anos. Manhã de sábado, um parente me apanhou na casa de meus pais para uma cerveja. Antes, fomos comprar umas coisas para a festinha de treze anos de seu menino, Lucas.

Comprei três ou quatro próprios para a idade do moleque. "Você é maluco, livro é muito caro. Depois de ler, empilha num canto pra ocupar espaço e juntar traça e poeira", o parente me repreendeu. "Tem razão, livro é mesmo muito caro. Mas, se Lucas cuidar direito, logo Lucinha e Tiago lerão também", eu disse.

"Duvido, esses dois são mais espertos, pedem que o irmão leia para eles". "Pô, Geraldo, isso é muito legal!", festejei. "Não sei, não. Quando enfia o nariz num livro, Lucas desaparece do mundo...", suspirou. "E qual é o problema?", provoquei. "O problema é que ele acha que sabe tudo só por que leu num livro, no jornal...". "E ele já lê jornal?". "Faz tempo, já. E o pior é que a Sílvia dá corda...". "Dá corda como?". "Explica lá do jeito dela tudo que ele não entende, daí ele acha que pode se meter em conversa de adulto".

Disse que não via nada errado no menino conversar com adultos, pelo contrário, facilitaria seu crescimento, sua compreensão do mundo, lhe permitiria pensar conceitos de cidadania e... "Enche o saco, isso sim!", meu primo me interrompeu. "Você não tem filhos, não sabe como é. Mas ele está crescendo muito bobo, todo certinho. Não quero que roube ou que minta pra mim, mas não pode ser bobo e...". "E o que é ser bobo, Geraldo?", foi minha vez de interrompê-lo. "Ah, você sabe, todo sujeito muito certinho, que só fica lendo e não vai viver, aprender com a vida, acaba passado pra trás", faltaram-lhe argumentos.

Disse-lhe o que pensava: se o menino gostava de ler, devia estimulá-lo. Repetiu, com razão, que o livro é muito caro, que emprestasse dos filhos de otários, pegasse da biblioteca; comprar, só quando a escola mandava. De bobeira, ele não gastava seu dinheiro.

Eu, sim, tinha sido bobo a vida inteira, perdendo tempo e dinheiro com livros. Tempo, lendo-os; dinheiro, comprando-os. Seria rico, não fosse tão bobo.

Fomos às cervejas e, com elas, mais as caipirinhas e os bolinhos de bacalhau, gastamos, cada um, mais do que paguei pelos três ou quatro livros para Lucas.

Preferi não observar isso. Meu parente podia estar certo e eu ser mesmo muito bobo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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