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Noites de antigamente
(*) Diorindo Lopes Júnior
Nas noites de antigamente, ventania era o bufar enraivecido de gente morta. Quanto mais gelado o vento, mais furioso o espírito do defunto. Verdades de meu avô, que se divertia mangando de nosso medo de menino. Meu avô gostava de contar causos de gente morta que ele tinha conhecido e que virava assombração, para puxar nosso pé com sua mão gelada, nas noites mais escuras.
O ruim, pelas palavras de meu avô, é que mesmo as noites de lua cheia podiam ser bastante escuras.
Histórias da mula-sem-cabeça, do Caipora, lobisomem e outros folclóricos, não nos metia medo porque já éramos grandinhos e líamos (obrigados) os livros que as professoras mandavam. Mas quando meu avô começava falando "pois um conhecido meu, um dia...", começávamos a nos borrar.
Porque esse conhecido de meu avô geralmente havia matado algum desafeto e, arrependido, se matara em seqüência, mas sua alma não conseguia descansar e então vagava pelos caminhos dos vivos pedindo velas e rezas, missas, mas, como os assustava, não era atendido e prosseguia em sua purgação. Isso quando não era o assassinado que, inconformado com seu inesperado epitáfio, aparecia para azucrinar com seus lamentos de injustiçado o sossego dos pobres, vulneráveis e indefesos viventes.
Meu primo Jorge, que nem era neto de meu avô, (já que era sobrinho de meu pai e meu avô era pai de minha mãe), mas estava sempre comigo, não passava uma noite sem molhar a cama - para resmungos de minha avó, que nem era avó dele, mas era quem tinha de forrar sua roupa de cama com um oleado.
Histórias de mulheres que se matavam tomando formicida com guaraná por abandonos de amor e, por isso, infernizavam a vida dos outros, não faltavam ao repertório de meu avô. Nem de amantes que, realizado o pacto de suicídio duplo, não se reencontravam nas trevas da morte - geralmente, porque um dos dois refugava na hora H.
Os causos se multiplicavam. De encruzilhadas enfeitiçadas e caveiras falantes, nem vou falar. De parentes que não tiveram tempo de revelar segredos familiares abomináveis, também não. Amigos que foram traídos em vida (a maioria pela mulher de um deles) e vagavam nas sombras pleiteando alguma justiça, muito menos. De crianças martirizadas que, defuntas, transformavam-se em pequenos demônios arruaceiros, com choros e gemidos noturnos parecidos aos de gatos disputando fêmeas, sinceramente, prefiro esquecer. Ainda me provocam arrepios.
Por que fui me lembrar disso agora?
Talvez porque, na época, a luz elétrica ainda fosse muito pouca e o tênue lume dos castiçais e lampiões inspirassem fantasmagorias muito mais.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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