| Coisas que não sei e outras que nunca fiz
(*) Diorindo Lopes Júnior
Costumo mentir dizendo que fui roqueiro, mas a verdade é que nunca aprendi a dançar, exceto (e mal) o "doispralá-doispracá", com um leve remelexo dos quadris. Mas, ao som do Alice Cooper e Elton John, eu saía do sério e arrepiava - ou imaginava que.
Também nunca aprendi inglês, e não foi por falta de empenho de abnegados professores ou de apoio de colegas que, penalizados, me passavam cola nas provas. Era capaz de decorar uma letra e até cantarolá-la, mas sem dela compreender o significado.
Não peguei o tempo dos Beatles e praticamente ignorei os Rolling Stones. Ouvi discos solos de John Lennon, mas me encantava mesmo era com Paul McCartney. Tampouco participei da Jovem Guarda. Dos festivais, lembro-me de alguém ganhando uma bolada apostando em Sabiá, de Jobim e Chico, versus Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, do Vandré.
Nunca aprendi a cascar laranja, hoje, ainda corto em quatro e arranco a casca. Nem a passar roupa ou pregar botão, eu aprendi. Dar um bom nó na gravata, prefiro nem falar, tantos os vexames. Dançar samba e valsa, qualquer dança de salão, também não. A ser esperto no baralho, muito menos. Se convidado fosse a participar de qualquer falcatrua, provavelmente seria o único da quadrilha a ir em cana.
Também devo ser o único sujeito do mundo que se esqueceu de como se anda de bicicleta. Outra coisa que já não me atrevo é atravessar uma piscina a nado e até hoje trato o mar com bastante respeito, reverência e a devida e prudente distância.
Ganhar fácil uns montes de dinheiro, outra coisa que não aprendi. Gastar, sim, sou especialista. Surfar, jamais me atrevi. Nunca matei um passarinho e fui até bom de pontaria nas brigas de estilingue.
Nunca aproveitei direito as motocicletas que tive, saindo por aí, só com uma mochila nas costas. Lacuna irrecuperável em minha biografia - se é que algum dia terei direito a uma.
Nunca ressuscitei por completo das incontáveis vezes em que, traído, morri por amor. Do mesmo modo, jamais proferi "minha vida daria um grande livro", a frase mais contumaz dita por infelizes que confundem suas tragédias pessoais com literatura.
Nunca li Paulo Coelho - o que me exime de falar mal ou bem de seus escritos. Seus livros vendem aos milhões, então, ruins, para serem simplesmente deixados de lado ou atirados longe, não devem ser.
Nunca disse "pior do que está, não pode ficar". Pode, sim. Sempre. E muito.
Jamais matei alguém - vontades existiram, oportunidades bastante, mas coragem nunca. Também nunca morri de fato e, tomara, ainda demore muito.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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