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A moça bonita que não queria namorar
(*) Diorindo Lopes Júnior

Seu nome era Carolina, mas a chamávamos de Carol e ela não gostava, corrigia. "Embora eu não tenha olhos tristes, que guardam tanta dor, pensem na música do Chico e me chamem de Carolina", dizia.

Tinha quatorze anos e andava com a gente, embora estudasse em outra escola e, nas festas de garagem, só dançasse com caras mais velhos. Nunca a vimos com um namorado, falava "não" a todos que a pediam em namoro e esquivava-se com elegância dos mais afoitos que tentavam beijá-la no final das danças.

Não fez festa pelos quinze anos, mas foi ao baile das debutantes. Dançou com o pai e com o padrinho, mas sentou-se para conversar com a mãe e a quem imaginamos uma tia, na valsa dos namorados.

Aquilo não estava certo. As outras 23 debutantes dançavam com namorados ou pretendentes.

Terminou o (antigo) ginásio com a maior média da turma e anunciou que ia fazer o colégio (hoje, Ensino Médio) técnico em Zootecnia em outra cidade. Gostava muito de bichos, a eles ia dedicar seu futuro.

Esfriamos. Carolina não podia ir embora.

Nunca mais suas pernas bonitas nas saias pouco acima dos joelhos do uniforme escolar. Nunca mais suas coxas nas aulas de Educação Física. Nunca mais seu sorriso inesquecível em qualquer situação. Nunca mais seu jeito único de cruzar as pernas nos bailes e nunca mais seus exuberante joelhos num simples caminhar pelas calçadas esburacadas da cidade.

Reencontrei-a outro dia, numa notícia de jornal, coluna social de uma revista para ricos. Comprara uma vaca leiteira e parideira num leilão e sua foto foi exibida, bonitona. Fazendeira numa cidade de Goiás. Cidade pequena, a julgar exclusivamente pelo mapa.

Internetei um conhecido, nunca visto pessoalmente, de uma cidade próxima. Ele foi saber e me contou que Carolina hoje é uma viúva bem de vida e de bem com a vida, mãe de quatro filhos e avó de alguns privilegiados netos. Investe pesado em melhoria genética de gado de corte e na pesquisa de criação de peixes.

Fiquei contente. A mesma Carolina que conheci adolescente: como um bom vinho, melhorada pelo passar do tempo e, ainda e sempre, um bom partido.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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