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Mistérios da lata de tinta azul
(*) Diorindo Lopes Júnior
Não sei se já falei a vocês da lata de tinta azul. Se já, peço desculpas; se ainda não, vamos lá. Quem me contou a história foi Hudson.
"Imagine que um dia você entra de bobeira numa loja de tintas e descobre uma de um azul meio parecido com o céu de verão, depois da chuva. Limpo, nenhuma nuvem, só aquele céu azul espetacular que você já viu, mas tinha esquecido...", ele começou.
"Na hora, você imagina como seu quarto ficará pintado daquela cor, amola teu pai para comprar, promete ajudá-lo e só não pinta também a porta e a janela porque tua mãe se mete e exige branco. Você refuga um pouco, mas concorda, não adianta discutir com mãe nem quando a coisa é só sua...".
Fiz cara de interessado, "e daí?", queria ver aonde aquele papo de aranha ia acabar. Eu conhecia meu amigo, tantas enrascadas nos metemos juntos.
"Os primeiros tempos são maravilhosos, você quase nem tem vontade de sair do quarto, muito melhor ficar fantasiando nele coisas que nunca fará com as meninas que, mais do que tudo, você queria que fossem conhecê-lo. Algumas até vão, curiosas para ver o resultado do teu esforço com uma pequena ajuda do teu pai, mas não rola nada.
"Não...?", não escondi minha frustração.
"Não pode. Pelo menos, não com tua mãe cantando desafinada, aos berros, e derrubando de propósito panelas na cozinha e, também da cozinha e também aos berros, informar que já vai passar um café, levar um lanchinho...".
"Mães... Eu sempre me esqueço de nossas mães. Dependesse delas, jamais conheceríamos outros colos...", concordei.
"Enfim, nos primeiros tempos, aquela cor te proporcionou belos momentos, inimagináveis pensamentos, mas o tempo foi passando e permitiu a inevitável rotina, a pintura foi-se descolorando...".
"Aí, só com uma tinta nova", opinei.
"É, uma tinta nova. Mas, antes, num sábado à tarde, nada pra fazer, você começa a mexer nuns cacarecos velhos e topa com a lata. A mesma lata de tinta azul que um dia tanto te fascinou. Você abre a lata e vê, lá no fundo, a composição química que deu o tom de azul, coberto por um líquido quase transparente, parecido com água. Você fica ali, olhando, pensando, lembrando... Quando toca o telefone!".
Não falei nada. Estava mesmo muito curioso.
"Então, você corre atender, fala um pouco e quando volta percebe que alguém passou por ali, pegou alguma coisa e mexeu, misturou tudo...".
"Espere aí, quem passou e mexeu?" - quis saber.
"Não importa, alguém passou, mexeu e misturou tudo. Parece a mesma tinta, até o cheiro parece igual, você poderia jurar que é, tão parecida ficou. Você até gostaria que fosse, mas teria de mentir pra si mesmo, se enganar. E você não pode mentir pra você mesmo, menos ainda se enganar", filosofou com um toque de melancolia.
Não pude acreditar, meu amigo Hudson, o sujeito mais cético e pragmático que já conheci, demonstrando alguma sensibilidade... - que nunca teve, posso juramentar em cartório.
Perguntei-lhe a razão de estar me falando aquilo.
"Nenhuma. Minha professora de Literatura contou isso hoje. Disse que era uma parábola sobre a vida, ou algo parecido. Como sei que você adora umas frescuras...", ele riu.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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