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Miseráveis trinta centavos
(*) Diorindo Lopes Júnior
Há coisa de uns três ou quatro anos, elegi um bar a quadra e meia da casa de meus pais. Sempre que vou visitá-los, é lá que gosto de beber minhas cervejas.
Uma vez, um língua-preta encostou ao meu lado no balcão e, meio que sussurrando, falou que no bar de um determinado fulano, a marca que eu saboreava custava trinta centavos a menos. Não lhe dei atenção.
Outro dia, precisei resolver um assunto perto deste bar. Lembrei-me do língua-preta e pedi uma cerveja. O sujeito me atendeu como se me fizesse um favor, como se minha presença o importunasse e maculasse seu estabelecimento.
Cerveja apenas fria, olhei em volta. Chão engordurado, parecia não saber de água há meses, preferi nem imaginar o banheiro. Poucas pessoas nas mesas não menos imundas, todas me olhando de um modo esquisito, todas me estranhando. Não me incomodei, não pretendia conhecer nenhuma.
Paguei com a garrafa pela metade, o copo nem isso. Verdade do língua-preta, a cerveja era mesmo trinta centavos mais barata. Mas eu não vou a um bar apenas para beber por beber. Beber por beber, bebo em casa, é muito mais barato.
Freqüento lugares pelo ambiente, pelo clima, pelo atendimento. Pelas pessoas que vejo e encontro, pelas conversas que rolam. Pelas histórias e mentiras que ouço, bravatas impensáveis, pelas gargalhadas que dou. Pelo glamour do lugar. E, claro, pela cerveja que me servem - que, num lugar assim, faz-se apenas um complemento do meu prazer. Custe quanto custar.
Fiquei profundamente envergonhado. Por alguns momentos, estive traindo o meu bar - e a mim mesmo - por miseráveis trinta centavos.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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