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Memórias gastronômicas

(*) Diorindo Lopes Júnior

Uma de minhas lembranças mais remotas é a de enrolar colheres de arroz e feijão com carne moída em folhas de alface e enfiar na boca. Devia ter uns quatro anos e minha mãe ficava horrorizada com a sujeira, mas depois de quatro ou cinco folhas eu estava comido.

Acho que na mesma época, desses enrolados em folha de alface, meu pai ganhou de alguém uns tomates grandões, ainda verdes, e os deixou na pia amadurecendo. Minha mãe estava lavando roupa, trepei num banquinho, peguei uma faca para fatiá-los, como ela fazia. Cortei o dedo, claro, e abri o berreiro.

Depois da bronca e do curativo, ela exigiu saber o que eu estava fazendo. "Uma leceita", respondi. Ela riu e falou que faria para mim. Trepei de novo no banquinho e fui falando para ele pôr sal, pimenta-do-leino, olégano e salsinha. "Agola, flita", pedi. Anos depois, vi algo parecido no filme Tomates Verdes Fritos.

Mais crescidinho, uns seis ou sete anos, eu comia duas ou três cenouras com casca, mas era minha mãe aparecer cozida num bife a role para eu fazer careta. "Por que você não cozinha um ovo no lugar?", um dia reclamei.

Ela experimentou e até hoje esta é uma mistura bastante apreciada na minha família.

O pai de Dionel trabalhava na ferrovia, mas ficava semanas sem aparecer em casa. Dava manutenção em trilhos e dormentes. Mandava dinheiro, mas as coisas eram mais lerdas que meu primo Jorge naquele tempo, então Dionel pegava um irmão menor, uma peneira para a arapuca, uns grãos de milho, o estilingue e ia caçar rolinhas. Uma vez, fui com eles.

Tínhamos oito ou nove anos, pegamos umas dez e eles destroncaram os pescocinhos. A mãe deles depenou em água quente, cozinhou, desfiou e misturou num arroz soltinho, delicioso. Mas eu, bocudo, sugeri um arroz papado. Dias depois, Dionel me chamou pra comer em sua casa, convite da mãe. Rolinhas desfiadas com arroz unidos venceremos, como eu sugeri.

De se comer ajoelhado.

Minha mãe nunca tentou, não tínhamos coragem de destroncar nem pescoço de galinhas - de algumas pessoas, sim, às vezes ainda tenho vontade, mas também me falta a necessária coragem.

No colégio, costumava estudar na república de três colegas de classe. Levava duas latas de sardinha (já era baratinho), uma de molho de tomate, uma cebola e cheiro verde. De madrugada, ia para a cozinha, fervia o macarrão muito além do ponto (ficava grudento) e misturava com o que tinha refogado noutra panela, caprichando na pimenta-do-reino e dando uma fritada.

Os mortos de fome não deixavam sobrar um fio.

Hoje, emburrecido pela vida, o máximo que me atrevo é cozinhar um ovo e grelhar na churrasqueira elétrica uma carne ou um filé de peixe - e já queimei.

Não faz muito tempo, fui obrigado a retirar as rodinhas de meu fogão. Imaginando que eu fosse bulir nele, o canalha corria para a área de serviço toda vez que eu entrava na cozinha atrás de um copo d'água...

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

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