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O "melhor" será mesmo melhor?
(*) Diorindo Lopes Júnior

Conheço pessoas que batem no peito, orgulhosas, quando afirmam fazer de tudo para que seus filhos tenham o que nunca tiveram. Muito justo, filhos têm direito ao melhor de seus pais.

Note bem: eu escrevi "ao melhor", não ao mais caro. Muita gente confunde qualidade com valores, e não é bem por aí que a roda deve girar.

Fiz o antigo ginásio em escola pública, num tempo em que a escola pública era referência de qualidade. Para estudar nela era preciso preparar-se muito e encarar um vestibulinho. Se tinha sacanagem? Tinha. Tenho um amigo, hoje jornalista dos mais respeitáveis, cuja mãe foi procurada e convencida/ameaçada a matriculá-lo em uma outra escola pública, também boa, mas não como a que eu estudaria e onde ele também havia se qualificado, por méritos.

Divirjo do assunto.

No afã de dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram, esses pais esforçam-se para mantê-los em escolas caras (geralmente muito bonitas arquitetonicamente e repletas de sofisticados equipamentos), com mensalidades e matrículas muito acima de seus restritos limites de endividamento. Então, esfalfam-se em horas extras, bicos, cortes das despesas, fim do lazer e outros meios para economizar um dinheirinho.

Só que, ao contrário das crianças de minha geração, que conviviam com todas as camadas sociais (e se cultivava a inveja dos mais abonados e até se descontava a diferença no futebol ou nalguma briga de rua), as crianças de hoje, submetidas a esta situação, convivem em sua maioria com os filhos de pais que realmente podem pagar essas escolas caras.

Se a coisa ficasse apenas no plano educativo, talvez o horror não fosse tão feio. Entretanto, há o inevitável convívio social. As festinhas, os passeios, namoros, o ano e o status do carro de quem vai buscá-los, a casa (ou o casebre) onde moram, as roupas, os tênis de marca, celulares, viagens...

Quero acreditar que os esforços desses pais qualifiquem seus filhos para que busquem e encontrem o melhor para suas vidas. Contudo, conhecendo alguns desses fedelhos, começo a duvidar da eficácia de uma escola cara - para eles. Casca aparentemente boa, conteúdo bastante prejudicado.

Fico aqui pensando: pais têm o direito (ou o dever) de refletir nos filhos aquilo que não foram, não conseguiram ser, não são? Não seria mais gratificante pagar uma escola menos cara e também boa, trabalhar um pouco menos para sobrar mais tempo para mais conversas, passeios, viagens, mais estar junto? E nessas conversas, ou a partir delas, transmitir aos filhos as raízes que os geraram, os valores adquiridos pelas dificuldades enfrentadas, falar dos avós e bisavós, tios e tias já falecidos, contar as histórias de suas infâncias, compararem-nas e, quem sabe, rirem juntos.

Imagino que, ao menos, tornaria almoços e jantares familiares mais divertidos.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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