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Madrugadas
na av. Paulista
(*) Diorindo Lopes Júnior
Minha
"relação passional" com São Paulo tem muito a ver com a av.
Paulista. Nunca tive endereço nela, mas estudei, trabalhei
e sempre morei bem perto. Freqüentei seus bares e cinemas,
fui a shows, comprei em suas lojas, cobri passeatas e até
hoje gosto de caminhar a esmo por suas longas quadras.
Uma noite, parei a moto na calçada de um bar que já começava
a morrer. Comi um sanduíche e, quando saí, topei com uma coruja
gorda e feia pousada no guidão. Acendi um cigarro e, pacientemente,
esperei que a sem-educação voasse. O tanque de gasolina e
o banco da moto ficaram bastante sujos.
Uma outra vez, uma ratazana (parecia um gato) veio correndo
em minha direção e eu fiquei paralisado. Apoiou-se nas patas
traseiras, dobrou de tamanho, grunhiu para mim e desapareceu
num bueiro
Há vinte anos, na madrugada de 25 para 26 de abril, a emenda
das Diretas Já foi rejeitada no Congresso, tomei um porre
e só acordei de manhã, quando o segurança de um banco chegou
para abrir a agência. Tomei um café e comi um misto-quente.
Testemunhei um suicídio, dois incêndios, alguns roubos, atropelamentos,
brigas várias, amores ardentes e até mesmo uma foca que tocava
bateria numa banda - mas este é um assunto que prefiro não
falar.
Não gosto que me chamem de mentiroso.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br)
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