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Logística,
o último rincão do marketing - Carlos Alberto
Mira (Eco/96)
A
logística vem ganhando cada vez mais importância
na área do marketing, principalmente no varejo. Na
minha opinião, e a realidade do mercado tem demonstrado
isso, os produtos já não representam um grande
diferencial para o varejo. Há muita similaridade entre
eles. As marcas expostas nas prateleiras vêm praticamente
com a mesma qualidade há efetivamente diferenças
que tendem a desaparecer por completo. Há uma década
atrás tínhamos praticamente uma marca de fraldas
descartáveis que oferecia o produto com qualidade
as demais eram conhecidas como destinadas aos segmentos de
baixa renda. Isso já não acontece mais.
Quase uma dezena
de fabricantes oferece o produto com qualidade praticamente
igual. O mesmo acontece com outros produtos. Pense no que
aconteceu com o arroz, o feijão, o óleo e, para
ser mais ainda atual, os produtos eletrônicos e eletrodomésticos.
Todos foram em busca da qualidade para ganhar mercado.
Evidentemente,
no Brasil, a questão da baixa renda ainda é
um problema e, por isso mesmo, os produtos de qualidade inferior
têm sua reserva de mercado. Em termos diferencial, o
mesmo ocorreu com os preços. Eles deixaram de fazer
diferença, não porque o consumidor não
esteja ligando para isso mas, porque podem ser passíveis
de realinhamento a qualquer momento pela concorrência.
A partir do desenvolvimento
da internet e dos sistemas de comunicação, ficou
extremamente fácil se fazer uma pesquisa de preços
e verificar a quantas anda o humor (e o bolso) do consumidor.
De olho no quintal alheio, os supermercados ou quaisquer outros
estabelecimentos comerciais dispõem de instrumentos
com os quais podem estabelecer seus níveis de preços
a cada hora, mesmo que estejam a dezenas de quilômetros
de distância. Olhar o quintal do outro se tornou fator
de sobrevivência no mercado e o diferencial em preço,
a grosso modo, deixou de ter sentido.
Embora confundida
com marketing nas décadas de 70 e 80, a propaganda,
por sua vez, vem se tornando a cada dia mais cara e ineficiente
pelo menos no que se refere ao marketing do produto
- até mesmo em função do que aconteceu
com a qualidade e os preços. Recebemos diariamente
dezenas e dezenas de malas diretas; passamos por centenas
de anúncios ao folhearmos jornais, revistas e demais
publicações impressas; nossos computadores vivem
entupidos de mensagens eletrônicas de fundo promocional
e, ao ligarmos a televisão ou rádio, somos bombardeados
de comerciais, jingles ou seja lá o que for e nada
parece ser suficiente para nos deixar comovidos como potenciais
consumidores. Até a publicidade parece estar perdendo
seus referenciais, pois são cada vez mais semelhantes,
como se pode notar nas de cigarro, alimentos, venda de automóveis
e por vai ...
Pelo menos até
que apareça um outro instrumento, a logística
é atualmente o grande diferencial para qualquer produto
ou serviço que se queira comercializar. Ela é
quem vai possibilitar medir com maior acuracidade a satisfação
de quem adquire produtos ou utiliza serviços de terceiros.
E a razão disso é bastante simples. Tempo e
espaço são coisas cada vez mais escassas. O
consumidor precisa encontrar um produto ou serviço
que procura na hora certa e no local certo. Os fabricantes
e estabelecimentos comerciais, por sua vez, não podem
ficar entupidos com estoque porque isso representa custo,
o que, no varejo. No caso dos fabricantes, eles necessitam
cada vez mais de espaço para a produção,
que, em última análise, representa sua atividade-fim.
E aí é que a logística vai fazer a diferença
em toda a cadeia.
Ela visa colocar
o produto à disposição do consumidor,
no lugar e no momento que ele precisa. Já não
é mais necessário, por exemplo, ir até
grandes atacadistas para comprar em grandes quantidades, com
intenção de deixar os produtos estocados na
dispensa de casa (aqui vale lembrar também a questão
do espaço, afinal como se nota em habitação
isso a cada dia está a peso de ouro). Pode-se optar
pela compra do estritamente necessário para o gasto
da semana ou até mesmo do dia. É só o
consumidor entrar em uma loja de conveniência enquanto
abastece o carro (e aqui vale lembrar a questão tempo)
no posto de gasolina, ou mesmo dirigir-se a uma banca de jornal.
O
fundamento da logística é justamente este: exercer
coordenação para criar valor para o produto.
Para isso, utiliza-se uma equação entre fluxo
de informação e fluxo de mercadoria. Isso significa
que não basta ao comerciante comprar um lote de mercadorias
e pedir para entregar. Ele precisa saber exatamente a hora
e o local onde os produtos devem ser entregues em sua cadeia
de lojas. E isso vale tanto para os grandes varejistas quanto
para os médios e pequenos estabelecimentos.
Numa
economia sem inflação, o ganho passou a depender
da velocidade do giro do estoque. O ideal é que se
tenha um estoque pequeno, podendo gira-lo várias vezes,
desde que se tenha um perfeito controle do fluxo de informações,
para não correr o risco de desabastecimento. Para isso,
é necessário atualizar o banco de dados dos
produtos à medida que as vendas são registradas
no check-out, de forma a garantir um estoque mínimo
regulador. Óbvio que ele precisa ter um sistema de
informação bem apurado, mas não de trata
de coisas sofisticadas. Um check-out que tenha o controle
de estoque da loja, interligado com os principais fornecedores,
para que disparar automaticamente o pedido quando constatar
o estoque chegou ao nível mínimo já é
suficiente. E, para os pequenos comerciantes, isso é
não é difícil de fazer, porque em sua
atividade têm poucas variáveis macroeconômicas.
Sob
a ótica do marketing, portanto, a gestão sobre
a Propaganda, o Produto e o Preço já não
são mais ferramentas eficazes o suficiente para vender
um produto ou serviço. A Logística está
aí - agora - se transformando no maior diferencial
competitivo da indústria e do comércio moderno
e por isso para ela dou o apelido de o "último
rincão do marketing".
Carlos Alberto Mira (Eco/96) é empresário
do setor de Transportes e Logistica, Economista, pós
graduado em Marketing, professor do MBA da FEA/USP, membro
do Conselho Superior da NTC (Associação Nacional
do Transporte de Carga) e Presidente da ASLOG (Associação
Brasileira de Logística).
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