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Livro,
este personagem desprezado
(*) Diorindo Lopes Júnior
Confesso: sou de um tempo onde era comum crianças ouvirem
frases como "um país se constrói com homens e livros". Ou
"livro, presente de amigo". Alguma coisa mudou (para pior,
muito pior) nesses quarenta anos.
A cada Bienal ou feira de livros que vou, sinto-me num enorme
e barulhento shopping center literário. Na ânsia de arrebanhar
novos (e mais jovens leitores/consumidores) as editoras empenham-se
em atividades que muitas vezes, no frigir dos ovos, pouco
ou quase nada tem a ver com Leitura.
Isso sem falar nos preços, os mesmos praticados pelas livrarias.
Sendo que as editoras, nesses eventos, não têm de pagar o
percentual dos distribuidores e nem o das livrarias - a justificativa
fica pelo metro quadrado dos estandes, dizem-me que maior
que o de um carro popular. Acredito.
Notícias sobre esses eventos esmeram-se em descobrir curiosidades,
número de visitantes (que pagam ingresso e estacionamento,
além do gasto com o combustível) e montante financeiro que
girou. Nada anormal, a indústria editorial é um bom negócio.
Se não fosse, o que justificaria a gana de grupos estrangeiros
sobre as nacionais?
Mas não é disso que quero falar.
Fui almoçar com um amigo e sua mulher ligou um pouco antes
da sobremesa. O filho do casal ia a um aniversário e precisava
de presentes. Fomos a uma loja de brinquedos, lotada pela
proximidade do Dia das Crianças. Sugeri, então, uma livraria
ao lado, vazia às moscas.
¾ Ficou louco, cara?! É uma festa infantil!
Outro precisava comprar um presente para a mãe e eu, ingenuamente,
outra vez sugeri um livro.
¾ Ah, de receita ela já tem um monte...
Uma cunhada, recém-casada e querendo agradar o sogro, pediu-me
para ajudá-la a escolher uma vara de pesca - como se eu entendesse
do assunto. Tolo teimoso, falei-lhe de O Velho e o Mar, clássico
de Hemingway.
¾ De jeito nenhum! Vaidoso como é, vai pensar que estou de
gozação com sua idade.
Devia ter comprado logo um pijama.
O fato é que temos datas comerciais comemorativas praticamente
o ano inteiro e só vemos propaganda de bugigangas do dia a
dia. De livro, é tão pouco que nem me lembro de alguma recente.
Puxa, e a Câmara Brasileira do Livro, a Fundação do Livro
Infantil e Juvenil, as tantas academias de letras espalhadas
aí pelo Brasil, será que nenhuma entidade consegue mendigar
aos veículos de comunicação alguns míseros centímetros de
coluna, uns reles segundinhos institucionais para divulgar
nessas ocasiões, ou o ano todo, o tão desprezado livro?
Depois reclamam que o povo não lê.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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