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Desfeita de uma jovem bovina
(*) Diorindo Lopes Júnior

Dudu limpava os óculos cuspindo nas lentes e as esfregando na camiseta. Isso, mais que a miopia, talvez explicasse sua distorcida visão de mundo.

Baixinho, gordinho e precisando fazer a barba desde os onze anos (o que nos matava de inveja), era rejeitado sumariamente pelas meninas de nossa idade, faixa dos quinze. Nos bailinhos de garagem, nunca se atrevia a tirar alguma para alguma dança e só dançava se uma ou outra quisesse fazer desfeita para alguém. Nessas, às vezes, se dava bem.

Como numa noite de domingo em que eu, afobado, tentei beijar a boca de uma pirralha de treze anos e fui sumariamente rejeitado. Quase expulso da garagem. E isso porque sua melhor amiga me disse, antes da festa, que ela estava muito a fim de mim.

Não bastasse o vergonhoso passa-moleque aplicado, a jovem bovina deu de se insinuar para cima do Hudson, "não, ele é meu amigo", e para cima do Hélder, "de jeito nenhum, ele é amigo do meu irmão e não quero apanhar em casa", da mesma idade dela.

Restou-lhe Dudu e o pulha não a afastou. Só não a beijou na boca. Para ela, beijo na boca era coisa séria, de compromisso mesmo. Ele contou-nos, muito senhor de si, um pavão na volta pra casa.

- E por que não a pediu em namoro? - rugi.

- Ela é muito novinha. E eu também não quero me comprometer a casar, nem virar pai agora. Pra você ver, hoje eu até trouxe camisinha...

Já não me lembro mais do rosto da jovem bovina, cuja boca nunca beijei, mas aposto como Dudu jamais se esqueceu do bicudo que lhe dei no traseiro.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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