Quem somos
Localize sua turma
Galeria de fotos
Cadastre-se
Associado Efetivo
Netmail
Seguro de vida
Porque hoje é sexta-feira
Recrutamento e seleção
Links interessantes
Fale conosco


Incêndio Literário


(*) Diorindo Lopes Júnior

No último 25 de agosto, um domingo, fui surpreendido no início da noite com a notícia de que um incêndio destruía um depósito da Editora Saraiva, aqui em São Paulo; depois, não soube mais nada. Imagino que ali estivessem estocados milhares de exemplares de livros. Na manhã de 2ª, procurei nos jornais e TVs - preocupação natural, tenho um livro publicado pela Atual, editora que agora pertence à Saraiva e com a qual tenho contrato. O máximo que soube é que não houve vítimas, só prejuízos materiais.

Como não houve vítimas? E os livros de milhares de autores ali depositados, não seriam também vítimas do furor do fogo? E esses autores, desses mesmos livros?

Graças a Deus, era um domingo e nenhuma vida foi sacrificada. Mas, insisto, e os milhares de livros, por acaso não foram vítimas? Indiretamente, os possíveis leitores desses livros não foram vítimas, ao serem impedidos de lê-los? E os autores, esses livros por eles escritos, não são parte significativa de suas vidas, seus momentos de solidão absoluta e criativa? E os personagens muitos, ali reunidos e que ganham vida na fértil imaginação dos leitores, será que sofreram o horror que alguém como nós, de carne e osso e que vivemos o que chamamos "viver de verdade", sofreria? Terão morrido, os personagens, muitas mortes, já que "viviam" em incontáveis exemplares? E como teriam sido suas dores, sendo queimados aos magotes, em páginas nunca ainda sequer folheadas? Teriam se sentido como as vítimas indefesas do Holocausto?

Falei com uma amiga que lá trabalha, estava perplexa, mas pareceu-me conformada. Eu, não consigo parar de pensar nas chamas devorando personagens e o trabalho duro de muita gente. Sei como é complicado o processo de transferir a idéia primeira de um escritor para um volume impresso e levá-lo ao leitor.

Um edifício em chamas, que sacrifique dezenas de pessoas, será notícia por alguns momentos no mundo todo. Uma biblioteca, inundada por incontroláveis águas de verão, quando muito, ganhará um rodapé numa página sem muita importância.

Decididamente, livros não têm vida, não significam nada. Apenas um amontoado de papéis que envelhecem, ficam amarelos, ocupam espaço, juntam poeira e ácaros, muitas vezes traças, fazem espirrar. Embora a "vida" contida em suas páginas venha a contribuir para tornar melhor a vida das pessoas.

Imagino minha editora consternada e de luto. Eu, e quem mais sabe a importância dos livros, também.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (Atual/Saraiva Editora --SP) e Cesta de 3 (Alis Editora - BH).

Antigos Alunos Faap © Copyright 1997-2012
Todos os direitos reservados.
Gerenciamento