A guerra das mamonas
(*) Diorindo Lopes Júnior
Sempre que vinha passar férias em casa, algumas vezes meu primo Jorge tomava emprestada minha bicicleta vermelha e ia encontrar seus amiguinhos na antiga rua onde morava. Povinho muito metidinho a besta, eu não topava com a cara de nenhum.
Uma tarde, chegou esbaforido e com uma sacola de feira cheia de cachos de mamona. Estava passando na frente da estação de trem e meu avô o chamara para contar que ali perto tinha um terreno lotado de pés. Jogamos as que ele trouxe em cima do telhado para secar e fomos correndo para a estação.
(Verdes, as mamonas tinham algum peso e a gente podia controlar a direção nas guerras de estilingue; secas, ardiam mais na pele dos inimigos.)
Meu amigo Marquinhos já estava lá com outros moleques. Óbvio, morava perto e novidade era com ele mesmo. Desde pequeno, sabia de tudo e, além de fazer, fazia correr fofoca melhor que qualquer comadre da cidade. Na época, seus cabelos ainda eram fartos e pretos, não ralos e brancos como hoje, que ficam rosados quando o sangue lhe sobe à cabeça. Ainda assim, eu e meu primo Jorge enchemos outras duas sacolas de feira com cachos de mamona verde.
Depois, acertamos uma guerra entre nossas ruas para o dia seguinte. Ali mesmo, naquele terreno perto da estação de trem. Porque naquele tempo era assim: toda guerra de mamona ou castanha de caju era combinada na véspera, para dar tempo de os combatentes catarem munição suficiente.
Essas edificantes batalhas duraram até quando uns idiotas começaram a usar búricas (bolinhas de gude) no lugar de inofensivas mamonas e castanhas de caju.
Lembre-me disso lendo uma reportagem sobre o biocombustível à base de sementes de mamona, girassol, dendê, entre outras coisas. Durante muito tempo, para mim, mamona foi somente uma praga que dava em terrenos baldios e servia de arma de guerra para meninos que precisavam queimar energias para não enlouquecer suas indefesas e histéricas mamães.
No outro dia, na combinada guerra de mamonas, eu, meu primo Jorge e os meninos de minha rua precisamos fugir correndo avenida acima. Os meninos da rua de Marquinhos tinham levantado mais cedo e catado muito mais cachos de munição do que nós.
E a pontaria de Marquinhos era muito boa, então: só minha testa foi brindada umas cinco ou seis vezes com suas mamonadas certeiras.
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).