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Guerra de carrapichos
(*) Diorindo Lopes Júnior

Dias desses, meu primo Jorge se lembrou de que, um dia, eu o empurrei sobre um espinheiro, ele caiu sentado e pensou em mim por mais de uma semana.

¾ Pior foi na escola, mal podia me mexer na carteira que doía...

o orelhudo do meu primo Jorge é um inventor de lembranças, vê lá se eu seria capaz de tamanha malvadeza... Ainda mais com ele, meu único primo Jorge.

Daí eu me lembrei das batalhas com carrapichos.

Uma plantinha vulgar, praga do mato, pouco mais de um palmo de altura, dava em touceiras. Tinha um talo de não mais de dez centímetros e, na ponta, também de não mais de dez centímetros, umas bolinhas espinhentas. Faz tempo não vejo, mas disseram-me que ainda existe nuns cantos de matos por aí.

Costumava grudar em nossas calças de escola e nas meias ¾ brancas que as meninas usavam.

Não machucava e doía muito pouco. Doía mais nos dedos para tirar, quando sobrava uma ou outra bolotinha espinhenta. Algumas vezes, os pequenos espinhos ficavam encravados nas digitais e nossas mães precisavam apelar para suas pinças de unha e costura.

E sempre ralhando - como ralhavam nossas mães!

Uma tarde, voltando para casa, encurtamos o caminho por um terreno baldio. Meu primo Jorge atirou um carrapicho em minhas costas e correu; precisando fugir, os pés de meu primo Jorge ganhavam asas.

Peguei um punhado numa touceira e corri atrás.

Devo ter-lhe acertado sete ou oito carrapichadas nas costas, mas mal se viu na rua meu primo Jorge ganhou velocidade e desisti. Minha mãe tinha me dado uns trocados para comprarmos uma bomba de chocolate para cada um e eu comprei e comi sozinho as duas.

Ainda do portão ouvi seus berros e soube: fosse qual fosse a mentira inventada por meu primo Jorge, minha mãe ia me lambar as pernas com o seu metro e meio da mangueira d'água ressecada.

Como meu primo Jorge todo mês freqüentava uns três ou quatro médicos, "não bata no teu primo Jorge, ele é muito doente", minha mãe vivia me azucrinando para não dar nele tudo o que tinha vontade.

Entrei e vi o chão da cozinha todo respingado de vermelho. Minha mãe cuidava de fazer um curativo no orelhão esquerdo do orelhudo - daí seus berros, como se lhes extraíssem as amídalas a seco. Um de meus carrapichos havia se encaixado exatamente atrás de sua orelhona de abano que, na correria, com o atrito contra os espinhos, sangrou de encher bacia.

Algumas pessoas roem as unhas. Naquela época, meu primo Jorge mordiscava os próprios lóbulos.

Escapei momentaneamente das lambadas de minha mãe alegando que meu primo Jorge havia me atirado um carrapicho primeiro, mas quando ela se lembrou dos trocados e eu admiti que havia comido sozinho as duas bombas de chocolate...

Aí, sim, a borracha de metro e meio comeu feio no meu lombo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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