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Goiabas bichadas
(*) Diorindo Lopes Júnior
Eu sempre me diverti às tampas com a implicância de meu amigo Hudson com Dudu. Já devo ter falado dele, Dudu: um baixinho gordinho, leso das idéias e que nos matava de inveja porque começou a fazer a barba aos doze anos. Se meu primo Jorge era lerdo, a leseira de Dudu beirava à debilidade mental.
Quando os via conversando - e como conversavam...! -, Hudson era implacável, impiedoso até: "conversa de lerdo com leso, um só vai rir da piada que o outro contou daqui a uma ou duas semanas"...
Não era um mau sujeito, o Dudu. Apenas não era capaz de tomar qualquer atitude sozinho, sob o risco de até provocar incidentes diplomáticos. Uma tarde, eu estava contando ao Hudson a participação japonesa na Segunda Guerra, matéria de escola que tinha aprendido naquele dia e Dudu ficou só escutando. No outro dia, jogou um saco de coisas de vaca dentro da quitanda do coitado do seu Ossuka. Que nunca esteve na Segunda Guerra e só era filho de japonês casado com brasileira e nascido num sítio perto da cidade.
Dudu jogava no gol, mas tinha tanto medo de levar uma bolada no nariz e quebrar os óculos fundo-de-garrafa que só o deixávamos jogar quando a mãe de Laurinho, nosso goleiro de fato, conseguia agarrá-lo distraído e o arrastava, pelas orelhas, para um indispensável banho semanal. Nesses dias, costumávamos apanhar de cinco ou seis - nunca menos.
No meu quintal tinha uma goiabeira. Um dia, minha mãe cismou de fazer um doce com as cascas e chamei Hudson e Hélder, seu irmão mais novo, para me ajudarem na catação. Enchemos uma bacia e, enquanto minha mãe não voltava de umas comprinhas na venda, ficamos comendo algumas na calçada, selecionando as boas e separando as bichadas.
Dudu apareceu quando já estávamos fartos e Hudson o convidou, oferecendo as boas... para serem jogadas no lixo. Dudu percebeu os buracos e recusou.
- Ora, Dudu, essas estão boas. Os buracos mostram que os bichos já saíram para passear...!
- Minha mãe falou que elas ficam assim porque os bichos entraram...
- Puxa, você acredita na dona Duda e não confia em mim, que sou teu vizinho e amigo há seis anos...?!
Confuso, Dudu provou a primeira e engoliu mais meia dúzia. Então, percebeu uma larva.
- Mas é claro, Dudu. Você demorou tanto para comer, que os bichos se cansaram do passeio e já voltaram, né... - Hudson não se abalou.
- É mesmo... - o leso devorou a goiaba bichada assim mesmo, bichada.
Hudson nunca fez muita questão de ir para o Céu.
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).
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