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Gentes Inoportunas
(*) Diorindo Lopes Júnior
Não sei você, leitor, mas se tem uma coisa que me tira do sério é estar no recesso do meu lar, trabalhando ou fazendo nada, e o telefone tocar, com alguém do outro lado da linha me oferecendo algo que não pretendo comprar ou pedindo ajuda que não posso dar.
Atendo quatro ou cinco por semana. Devem, essas empresas, exclusivamente pelo meu nome, julgar que fabrico dinheiro ou pratico maracutaias. É impressionante como adivinham minhas necessidades: cartões de crédito que não devo ter, contas em bancos, nababescas viagens que não posso fazer, assinatura de revistas alternativas que não faço a menor questão de ler, seitas e clubes que não quero integrar, contribuições que, se eu der, vai me faltar... E por aí vai.
E não aceitam um mero não, obrigado, não estou interessado. Insistem com os mais absurdos argumentos.
Ok, ok, essas pessoas estão trabalhando, defendendo sua marmita, eu bem sei, mas, falando sério, onde fica o meu direito à privacidade, de não ser importunado além do que o cotidiano já me aporrinha?
Esta semana mesmo, uma moça telefonou, perguntou se minha mulher e filhos estavam bem, mesmo eu não estando mais casado e nunca ter sido brindado com filhos, e foi logo ao assunto: cerca de 1.500 toneladas de doações para a população de Sri Lanka, uma das terras devastada pelas tsunamis, está se deteriorando num armazém no Rio por falta de transporte e ela estava arrecadando contribuições para fretar um navio e, para isso, contava com a minha ajuda.
Fiquei comovido, esses povos todos merecem e precisam mesmo de muita ajuda mundial, mas expliquei-lhe educadamente minha penúria: sem emprego há quatro anos, preciso montar num tigre logo pela manhã e negociar meu almoço para garantir a frugalidade do jantar - e, desnecessário dizer, quem monta um tigre, dele não pode apear...
- Ah, mas o senhor deve ter um amigo, algum parente, a quem possa pedir emprestado para nos ajudar.
Foi o suficiente para minha simpatia e cordialidade debandarem-se correndo. Pedi que me desculpasse, aleguei a campainha tocando e desliguei o telefone.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).
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