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A garça e o dono da garça
(*) Diorindo Lopes Júnior
Eu era muito pequeno e não me lembro nem vagamente, mas meu pai garante que eu vi algumas vezes o homem e a garça na plataforma da estação.
Era um ferroviário aposentado, viúvo, filhos crescidos e encaminhados. Sua vida era pescar pela manhã no ribeirão, almoçar o pescado e jogar dominó com outros aposentados na plataforma da estação.
Encontrou o bicho com a asa quebrada e o levou para casa. Dividiu os peixes do dia com a bicuda - era uma fêmea, tratou de sua ferida e continuou alimentando-a, dias e dias. Toda manhã, botava a emplumada debaixo do braço, a levava para a beira do ribeirão, e a soltava. Dividia os peixes que fisgava com ela, que os engolia ainda vivos. Com as semanas, precisou pescar mais para saciar o apetite da insaciável.
Naqueles dias, o ribeirão era pródigo em bagres, tilápias, lambaris, traíras. Uns anos depois, passou a receber ligações clandestinas de esgoto.
Esperava que, asa curada, um dia a garça voasse para o seu mundo nos ares. Mas, qual!
Acostumada à boa vida, a folgada no máximo dava uns bordejos até umas árvores perto, mas sempre voltava para a casa dele. E deu de acompanhá-lo, ora na frente, ora atrás, caminhando para todos os cantos com suas pernas longas, finas e desengonçadas. Virou atração nas ruas e na estação - onde comia milho, amendoim, pipoca, direto da mão que lhe mimava.
Parecia se divertir quando os netos visitavam o avô e lhe corriam atrás. Cansada, voava para o telhado e ali se protegia até quando fossem embora.
Este bem-querer durou até o velho morrer, uns três ou quatro anos. Os filhos o enterraram num cemitério novo, gramado, que não tinha túmulos, só cruzes e placas. Contam que a garça passava horas em cima da cova, como se chocando uns ovos.
Até o dia em que voou para sempre.
(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).
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