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Gansos alucinados
(*) Diorindo Lopes Júnior

Eu e meu primo Jorge tínhamos dez e nove anos e eu estava de férias na casa dele, em Pirajuí, pertinho de Bauru. Num canto de seu quintal tinha um mamoeiro, não um pé de mamão-macho, aquele que tem uma espécie de cipó que dependura o fruto no caule. Aquele era daqueles em que os frutos são grudados.

Tinha uma penca de sete ou oito, um deles estava bastante amarelo, e meu tio Zé Roedas bem que tentou apanhá-lo cutucando com um bambu comprido, mas ele estava bem no meio da penca.

Não tenho parentesco direto com macacos, mas trepar em tudo (telhados, muros e árvores) era meu passatempo favorito na época. Menino, eu podia ganhar a vida catando coco e açaí.

Em dois minutos meu tio Zé Roedas tinha seu precioso e desejado mamão nas mãos, mas, um aproveitador de crianças, ainda me pediu para tirar outros três que estavam de veiz na penca. Como centro das atenções, uma vez que meu primo Jorge morria de medo de qualquer altura e só subia escadas carregado, não me fiz de rogado.

Eu ainda não era este mamute obeso e barrigudo que ora vos escreve, mas o tronco do mamoeiro quebrou por conta de meu peso e eu, agarrado quase ao seu topo, fui caindo, caindo, caindo...

No quintal do vizinho.

Por pouco mais de meio metro, escapei de ser espetado pelas pontas da cerca de balaustras.

Ainda no chão, tentando entender onde estava e o que tinha acontecido, ouvi minha tia Iracema berrar: Corre!. Não entendi: correr de quê, do vizinho...?

Melhor dizendo, tia Cema: dos gansos do vizinho.

Cinco ou seis emplumados malvados, cruéis, idiotas, mal-alimentados, ferozes e barulhentos. Grasnando, bicando e batendo as asas - em mim.

Nunca na vida eu havia sido tão surrado. Nem quando a turma da rua de baixo me pegava distraído.

Eu havia tirado a camiseta para trepar no mamoeiro. Acredito que, fora as partes, cada centímetro de meu corpo foi vítima da truculência das bicadas.

Sem falar que meu calção ficou todo estraçalhado.

Meu tio Zé Roedas provou que meu primo Jorge tinha mesmo a quem puxar: levou séculos para pular a cerca de balaustras e me safar dos gansos celerados.

Fui devolvido aos meus pais antes do prazo combinado para o final das férias. Mas, pelo menos, minha tia Cema e meu tio Zé Roedas me deram um ralo dinheirinho para o fabuloso sanduíche de mortadela com queijo, que só o restaurante da ferrovia fazia.

Dores, broncas, sopinhas horrorosas e ungüentos de minha mãe e minha avó à parte, anos depois, tudo isso me parece muito divertido e bastante engraçado.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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