|
Games brasileiros
(*) Diorindo Lopes Júnior
Noite
dessas, vi no noticiário que muitos jovens brasileiros estão
abraçando (e se dando bem) uma nova profissão: criadores de
jogos eletrônicos, games para computador. Gostei do que vi,
principalmente porque a moçada desenvolve até temas brasileiros,
o cangaceiro Lampião, por exemplo.
De uns tempos para cá, sempre que viajo e não tenho um computador
à mão, freqüento essas lojas que alugam a internet para apanhar
meus e-mails. E o que vejo é uma legião de rapazes (mais)
e moças empenhados em derrotar adversários virtuais ou desenvolver
altíssimas velocidades, também virtuais.
Resumindo: jogam armados até os dentes. Afinal, veículos também
são armas perigosíssimas.
Não que esses jogos estimulem o crescimento da violência já
desenfreada que grassa por aí. A origem da violência possui
componentes outros que permito-me agora não falar, esses games
nem integram a ponta do iceberg. Talvez até sirvam de atenuante,
pois praticando a violências nas máquinas, quem sabe essa
macacada contenha-se na vida real.
O que me chamou atenção, no entanto, foi o ingrediente bélico
das produções. Vem cá, falando sério: será que todo jogo precisa
mesmo ter sempre alguém armado, batendo em alguém, matando
adversários, morrendo em curvas de alta velocidade? Será que
não é possível brincar de bumba-meu-boi, desafiar a compor
uma canção, a escrever uma história, ensinar a dançar?
O (recém-falecido) escritor Pedro Bloch tem um livro, A Fábrica
de Livros, que é um game pronto. Uma bela mistura de amor,
aventura e o conhecimento de como um livro nasce. A partir
da concepção do autor, passando pela aprovação da editora,
revisão, edição de texto, ilustrações, capas, tudo.
Penso muito louvável esses jovens ingressarem em uma profissão
que permite ganhos expressivos, até escolas se interessaram
por este novo mercado e criaram cursos. Porém, preocupa-me
esta necessidade de matar, abater, atropelar, morrer. Não
basta o já conturbado e perigoso cotidiano?
Queria ver um game infantil mostrando como se tira o leite
de vaca. Outro, juvenil, mostrando o jogo duro do primeiro
beijo no escurinho de um cinema, o encantamento de uma primeira
dança na festinha ou, este mais radical, como se livrar da
droga.
Nunca duvidei do talento criativo da gente brasileira, mas
incomoda-me a inexplicável subserviência aos generosos apelos
comerciais, ao imperativo "é assim que se faz!" da estrangeirada.
Seguir exemplos para aprender, tudo bem. Já dobrar os joelhos...
Não pretendo, de modo algum, que deixem de ganhar seu precioso
dinheirinho. Menos ainda se este rico dinheirinho vier de
fora, mas teria muito mais prazer se este dinheirinho fosse
ganho mostrando o belo país que somos e não refletindo a triste
realidade perigosa que vivemos.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
|