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"FAMÍLIA EMPRESÁRIA" DEVE AGREGAR VALOR

Renato Bernhoeft, consultor de empresas
Presidente da Bernhoeft Consultoria, membro do FBCGi -
The Family Business Consulting Group International na América Latina
E-mail: renato@bernhoeft.com
www.bernhoeft.com

As análises e visões que são apresentadas sobre a Empresa Familiar têm sido, na sua grande maioria, feitas com maior ênfase nas críticas e alertas para as fragilidades e riscos que ela apresenta nos desafios da sua perpetuidade. Sendo que a grande maioria se concentra ainda numa visão simplista de olhar a mesma, exclusivamente, na perspectiva dos negócios, suas estratégias e estrutura.

A proposta deste artigo é destacar a importância que a família têm neste processo, especialmente na medida em que ela torna-se um "ativo" que agrega valor, tanto à sociedade como à própria empresa. E desta forma rompe o círculo vicioso de ser encarada, preconceituosamente, apenas como um "passivo" que retira valor do patrimônio.

Para tanto é indispensável que, da mesma forma como muitos priorizam a necessidade de "profissionalizar" a empresa, também a própria família desenvolva um processo educativo que a torne uma "família empresária".

Em nossa experiência de algumas décadas de relacionamento e aprendizagem com empresas familiares, no Brasil e América Latina, é possível concluir que este processo é uma das determinantes para o sucesso destas organizações, de forma que possam assegurar sua continuidade através das gerações.

Examinemos alguns pontos chave na direção de tornar-se uma família empresária que passa a agir como um "ativo" que adiciona valor, tanto à sociedade controladora como à própria empresa. Eles têm se mostrado úteis para o tratamento de grupos familiares preocupados com o seu futuro:

- Compreender que a herança cria um vínculo acionário, complexo e delicado, que ao longo do tempo deverá sofrer um processo de diluição.Sendo que esta pulverização terá efeitos sobre as proporções que cada herdeiro terá no patrimônio. Ou seja, à partir da segunda geração desaparece a figura típica que engloba os papéis e responsabilidades de "dono", patriarca e gestor. Emerge então uma sociedade de pessoas que não tiveram a liberdade de se escolherem para este novo papel.

- Compreender e confrontar a típica cultura familiar que busca a igualdade e equidade, com a diversidade das participações acionárias emergente. Ou seja, dar início a um processo de separação entre os afetos e sentimentos familiares - que devem ser preservados e desenvolvidos - de um conjunto de critérios e procedimentos que possam estabelecer, de forma participativa, compromissos com um conjunto de direitos e obrigações para os envolvidos no papel e responsabilidades de Acionista.

- Educar-se para um competente desempenho do papel de Acionista, interessado em agregar valor ao seu patrimônio de forma profissional. Isto significa ter clareza que a empresa não deve ser olhada como centro de alocação dos familiares. Mas sim como um local onde devem estar profissionais - familiares ou não - capazes de agregar valor ao patrimônio e atender as demandas do mercado. Mas, paralelamente, é vital compreender que o Acionista que está fora dos quadros executivos da organização também pode adicionar valor, na medida em que se prepara para valorizar sua participação acionária de forma profissional.

- Aceitar que possam existir - ao longo de cada geração - "podas" nas participações acionárias que permitam reduzir o número de minoritários. É bom lembrar que, embora estes acionistas possuam pequenas participações no capital, eles não deixam de ter expectativas altas devido seu vínculo e influência familiar. Sair de uma sociedade familiar, de forma negociada e transparente, não exclui o acionista do vínculo familiar. Esta liberdade de transacionar a participação acionária pode ser encarada como uma forma prática e gradativa de conseguir separar estes dois universos que são a família e a sociedade nos negócios.

- Obter um equilíbrio entre as necessidades de capitalização da sociedade/empresa e as demandas de liquidez dos acionistas. Vale lembrar que estas demandas, individuais e familiares, tendem a crescer de forma mais intensa e rápida do que os lucros dos negócios.

- Comprometer os Acionistas - e suas famílias - com a criação de fontes alternativas de liquidez como forma de reduzir o grau de dependência financeira, muitas vezes excessivamente concentrada nos rendimentos do patrimônio da sociedade e das empresas.

- Educar os mais jovens da família, desde muito cedo, na sua relação com o dinheiro e poder, procurando torna-los responsáveis em relação aos "bônus" e "ônus" que a herança representa. Vale lembrar que herança não vem com manual de instruções.

- Assumir que cada Acionista e familiar deve conscientizar-se que é sua responsabilidade desenvolver um Projeto de Vida que contemple seus sonhos pessoais e busca da realização profissional. Para tanto é fundamental não olhar a empresa da família como sua única alternativa de vida. Ela pode ser uma delas, mas, em qualquer hipótese deve ser encarada com muita cautela.

- Cultivar e conhecer a história da família e empresa é também uma forma como os herdeiros, e futuros Acionistas, podem se preparar para fazer crescer e valorizar o patrimônio. Ninguém ama o que não conhece. Portanto, a consciência da história é instrumento útil para compreender que se, a cada nova geração não houver agregação de valor e a dependência financeira não for reduzida, os riscos de um fim trágico aumentam.

É evidente que esta relação de ações preventivas não se esgota. Outras tantas existem e se tornam necessárias. Mas o principal objetivo deste texto é funcionar como alerta e reflexão sobre um tema tão importante e delicado.

E o quanto mais cedo isto puder ser discutido e implementado - preferencialmente com o fundador ainda presente - maior será a eficácia destas ações.

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