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Da arte de falar mal dos outros
(*) Diorindo Lopes Júnior

Outro dia, um amigo disse que nasci com o dom para falar mal dos outros. Bom seria se verdade fosse, eu poderia até ganhar algum dinheiro honesto com isso; infelizmente, meu amigo é muito exagerado.

Quem sabia falar mal mesmo dos outros, a ponto de pulverizar as mais sólidas reputações, era meu avô.

Criava um para cada desafeto e não repetia.

Ainda bem que meu amigo não o conheceu, debochado como é, diria que herdei geneticamente essa arte.

¾ Eu conheci este moço ainda menino. Aos quatro anos já sabia montar cavalos. E aos sete já os roubava para o pai. É um herdeiro que aprendeu a honrar sua raça - uma vez, eu ouvi meu avô falando de um juiz de direito da cidade, fazendeiro muito rico.

¾ Este nosso delegado é muito bom, aprendeu o ofício desde cedo. Aos dez anos, fugiu com um circo, a polícia foi atrás, devolveu o circo ao dono e ele à mãe, já que o pai estava preso por roubar a caixa de esmolas da igreja. Pegou gosto pela polícia, mas não perdeu o de roubar...

¾ Falando em igreja, aquele barrigão do padre Osvaldo não é de filar bóia todo dia na casa dos fiéis, não. É a solitária dele que está crescendo, ser humano nenhum come sozinho o que aquele homem come!

Tinha três irmãs e não gostava de nenhuma. Da bonitona que morava em São Paulo era categórico: "aquela cheira bem porque só anda perfumada, não gosta nada de banho". Afirmava que se alguém a esfregasse por algumas horas com sabão de coco e água quente, lhe arrancaria umas duas ou três arrobas de sebo e cascão - "pelo menos emagreceria um pouco".

Até mesmo sem abrir a boca, o velho cuspia perdigotos. Em 64, quando os militares assumiram as ferrovias, implicou com um tenente que fazia o papel de secretário dum general qualquer. O pobre coitado não cheirava nem fedia, apenas cortava caminho por dentro do setor de cargas, que ele chefiava. Mal o sujeito passava, meu avô ia inspecionar o teto:

¾ Mandei pintar no começo do ano, um dinheirão, qualquer coisa de ponta pode arranhar...

De um prefeito, bajulador do governo militar, um puxa-saco sem-vergonha, foi com os dentes na jugular:

¾ Se esse cretino careca, filho dum pé de couve, morrer hoje, podem desenterrá-lo daqui a dez anos que o cadáver estará só com barba comprida. Vermes não costumam comer outros vermes...

Meu avô morreu há 35 anos. Vivesse uns vinte a mais, seus insultos comporiam um livro. De lombada larga, capaz de se sustentar em pé sozinho.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br ) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br ) e O sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br ).

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