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Escritor, este indigente
(*)
Diorindo Lopes Júnior
Ganho a vida como jornalista,
profissão que me escolheu (e acolheu) naturalmente. Gosto
de ler desde uns quatro anos, quando nem sabia juntar as letras,
mas obrigava minha mãe a ler para mim as aventuras do Mickey,
Donald & cia.
Na época, só Monteiro Lobato ocupava espaço no imaginário
infantil dos brasileirinhos e, antes dos dez anos, eu já havia
devorado toda a coleção. O que me levou a procurar outros
personagens, esses universais, sempre citados nas peripécias
de Emília, Pedrinho e a turma do Sítio do Picapau Amarelo.
Automaticamente, meu vocabulário ampliou-se, estudar ficou
mais fácil, ler revistas e jornais incorporou-se como hábito
à minha vida e, sem que eu me desse conta, passei a estar
sempre conversando (e perguntando) em rodinhas de adultos.
Lembro-me, ainda no antigo primário, toda semana a professora
pregava uma foto de revista na lousa e nos mandava descrever
a cena. Pois minhas composições sempre contavam uma história.
Sem saber, eu já estava fazendo reportagens.
Escrever ficção tornou-se um caminho natural, desde 1982 meu
nome e meus escritos aparecem em mais de quinze antologias
e, sozinho, assino três juvenis. No entanto, para ser levado
a sério, preciso me apresentar como jornalista - não reclamo,
é a minha profissão. Apresentar-me como escritor é a mesma
coisa que me confessar um vagabundo. Não dá para abrir crediário
e até em hotéis o sujeito da recepção me olha com desconfiança.
Uma vez, fui a um encontro de escritores e, ao me registrar
no hotel como tal, não fosse a interferência da moça da fundação
cultural que me convidou (e pagou o hotel), talvez nem me
hospedassem.
Como jornalista, a situação não é muito diferente, mas é mais
respeitada. Quando comecei, mesmo mostrando a carteira assinada,
as mães torciam o nariz quando as filhas falavam que haviam
conhecido um jornalista - uma raça boêmia, desajustada, ganhava
pouco (ainda é verdade), bebia muito e se vestia muito mal.
Jornalista e, ainda por cima, escritor, tirava qualquer mãe
mais séria do sério.
Uma vez, fui visitar uma escola no interior, papear com as
duas classes que foram obrigadas a ler um de meus livros.
Alunos de outras turmas foram aparecendo, alguns pais e mães
também, o que era para ser uma conversa com uns sessenta adolescentes
virou uma conferência para mais de trezentas pessoas.
Lá pelas tantas, uma senhora sapecou: "Além desses livrinhos,
o senhor faz o quê para viver?".
É assim. Poucos vivem exclusivamente do que escrevem. A imensa
maioria precisa se equilibrar em outros galhos para manter
os carnês em dia. Ou acaba na vala comum da indigência.
(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).
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