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O engraxate e o livro
(*) Diorindo Lopes Júnior

Um de meus mais assíduos parceiros de birita na padaria fresca que freqüento aqui perto de casa é o dentista José Alfredo Sampaio, o doutor Alfredo, a quem chamo de Zé, já que o conheci muito antes de se tornar doutor e ficar famoso entre os famosos.

Eu havia acabado de lançar meu livro Cesta de 3, ele foi e pegou o autógrafo, mas apareceu na padaria com um outro exemplar, limpinho, e me exigindo nova assinatura. Imaginei que tivesse perdido o exemplar autografado, não. Ele o havia dado. E contou uma história que me emocionou.

Com finalidade pouco ou nada odontológica, combinou encontrar uma senhora num happy-hour e chegou antes. O bar ainda estava às moscas e ele percebeu um menino sentado na calçada, atento à leitura de um livro. "Na hora, pensei em você e nessa tua quixotesca cruzada pela Leitura, mas me chamou atenção mesmo foi a caixinha de engraxate, ao lado do menino", ele disse.

Pediu uma caipirinha e começou a folhear o meu livro. De repente, o menino surgiu do nada oferecendo seu trabalho. Zé Alfredo havia se despido da beca odontológica e vestira-se como cidadão comum para o encontro com a dita senhora, conferiu os pisantes e constatou que os mesmos precisavam mesmo de um bom lustro, deu o ok e puxou assunto falando do livro que o menino lia e agora estava na caixinha, junto de escovas, panos e graxas - "Pântano de Sangue", de Pedro Bandeira.

- Você conhece? - meu amigo me perguntou.

Sim, conheço. Mas queria saber a história toda.

Enquanto ia dando um trato nos pisantes do Zé, o menino, "falante, desinibido", contou que sua escola era muito pobrezinha, mas tinha uma pequena biblioteca de onde ele sempre emprestava um ou dois livros. Lia no ônibus ou enquanto não aparecia freguês. Em casa, quase não podia. Nem sempre tinha luz e só o pai e a mãe podiam acender velas.

- E você se encantou tanto com o fato de o menino gostar de ler que me trouxe este exemplar para eu autografar para ele? - quando a vaidade me pega...

- Não, você já autografou. O menino se chama José Eduardo, no meu você escreveu só Zé. Acrescentei o Eduardo, corrigi a data e dei-lhe o livro como se eu fosse você. Precisava ver a alegria do garoto, disse que nunca tinha conhecido um escritor de verdade, nem ganhado um livro autografado.

- Zé, tem uma foto minha na contracapa!

- Ele percebeu. Falei que era do ano passado, depois deixei a barba. O que pode acontecer é ele pensar que, ao vivo, você é mais jovem, mais bonito e mais simpático - meu amigo riu.

De mim.

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

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