| Empreendedorismo,
solução para o desemprego
Nos últimos cinco anos, 96% das novas ocupações
foram geradas por pequenos negócios
PRISCILA
NÉRI
Impulsivas
e marcadas pela falta de planejamento, a maior parte das iniciativas
empreendedoras no Brasil acaba em morte. De cada 10 empresas
que abrem as portas, 7 deixam de existir até o quinto
ano de operação. A vida curta não faz
jus ao espírito empreendedor tão característico
do brasileiro.
Mas
o fenômeno pode ser compreendido ao analisar o que leva
um novo empreendimento a nascer neste País. O Brasil
é campeão mundial de empreendedorismo na modalidade
"por necessidade", como revelou uma pesquisa realizada
em 2002 pela ONG americana Global Entrepreneurship Monitor
(GEM), em 37 países.
Ao
contrário do que acontece nos países desenvolvidos,
onde as pessoas abrem negócios próprios por
vocação, sonho ou "oportunidade de mercado",
aqui - assim como em outros países pobres - a decisão
é motivada por fome, miséria ou falta de alternativa
no mercado de trabalho. O que significa que o empreendedorismo,
mesmo que de forma espontânea e um tanto estabanada,
acaba sendo a saída para essas pessoas driblarem o
desemprego e garantirem o sustento de suas famílias.
Com
o avanço da informatização e mecanização,
as grandes empresas já não são mais a
solução. "As grandes indústrias
não geram mais emprego. Ao contrário - elas
estão cada vez mais produtivas e lucrativas com cada
vez menos trabalhadores", aponta o professor Heitor Peixoto,
coordenador do Cento de Empreendedorismo e Inovação
da Business School, uma escola de educação executiva.
As estatísticas confirmam: nos últimos cinco
anos, 96% das novas ocupações criadas no País
foram geradas por pequenos empreendimentos.
Assim,
o empreendedorismo se consolida como um poderoso antídoto
ao desemprego. "Temos 14 milhões de empreendimentos
informais. Se cada um deles gerar um emprego, já serão
14 milhões de novos empregos", argumenta Simara
Greco, coordenadora-executiva da pesquisa GEM no Brasil e
consultora do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade.
"Quatro milhões (de empregos) a mais do que o
presidente Lula prometeu no seu governo."
Então
o que falta para o enorme potencial empreendedor do Brasil
deslanchar?
A
fórmula, segundo especialistas, é simples: capacitação
empresarial e gerencial para o empreendedor e, do lado do
poder público, políticas de fomento aos pequenos
negócios.
Necessidade
- A trajetória de Carlos Alberto Almeida comprova a
teoria. Vítima de uma doença hereditária
que o deixou cego aos 20 anos de idade, Almeida teve ainda
mais dificuldade de ingressar no mercado de trabalho. "Se
para as pessoas chamadas 'normais' já é difícil
encontrar um emprego, imagina para nós", diz ele.
"Passei muito tempo mandando currículos. Depois
percebi que eu tinha de procurar outros meios de sobrevivência."
Com
a ajuda do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas
Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Almeida abriu uma
fábrica de vassouras em Americana, no interior paulista.
A fábrica começou com um capital de R$ 1.500
e dois produtos: uma vassoura e um rodo. Cinco anos depois,
a Varrelar fatura uma média de R$ 30 mil por mês,
fabrica 22 itens diferentes e emprega 6 pessoas (quatro deficientes
visuais, como Almeida).
Desde
2000, a empresa é a principal fornecedora de vassouras
de piaçaba (usadas por garis) da Prefeitura de Americana.
"Vencemos todas as licitações nos últimos
três anos por causa da qualidade do nosso produto",
explica Almeida. "Agora vamos expandir para outras prefeituras
da região." Assim, a Varrelar, um empreendimento
nascido da necessidade, vence as estatísticas e cresce
um pouco a cada ano.
Oportunidade
- Na outra ponta, Marcus Abdo Hadade (Adm/94)
, de 31 anos, é um exemplo do empreendedor por oportunidade,
aquele que investe num negócio próprio por enxergar
um nicho de mercado. Junto com o irmão, Alexandre
(Adm/97) , Hadade foi incumbido pelo pai - um grande
empresário do ramo eletroeletrônico - de elaborar
um plano de negócios para uma área do grupo
que estava dando prejuízo: a Gráfica Arizona.
"Fizemos
uma extensa pesquisa de mercado e encontramos muitas oportunidades
no setor", conta Marcus, que é formado
em administração pela FAAP.
"Decidimos
comprar a gráfica do meu pai e focar em serviços
que tinham demanda mas não estavam disponíveis
nas outras gráficas."
Os
resultados falam por si: em cinco anos, o faturamento anual
da gráfica saltou de R$ 300 mil para R$ 8 milhões
e o número de funcionários da empresa subiu
de 6 para 65. Ignorando a crise econômica por que passa
o País, a empresa tem registrado um crescimento médio
anual de 74%. O segredo? "É preciso investir no
planejamento empresarial e acreditar no negócio",
ensina o empresário. "O associativismo também
é muito importante para compartilhar conhecimento e
experiências", diz ele, que aos 31 anos preside
a Confederação Nacional de Jovens Empresários
(Conaje).
fonte: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/10/27/eco040.html
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