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Empinando papagaio
(*) Diorindo Lopes Júnior

Naquele tempo na minha rua, ninguém tinha parente dono de fazenda, nem dinheiro para ir à praia nas férias. Eu passava uns dias com meu primo Jorge em Pirajuí e ele outros em Bauru. Curiosamente, minha mãe e minha tia Iracema caíam doentes quando éramos devolvidos à nossa casa.

Nas férias de julho empinávamos papagaios - em outros lugares são chamados de pandorga, quadrado, pipa, arraia, arara, etc. Eu só gostava de maranhão, que dispensava rabos para ganhar altura. E, preguiçoso, eu só os fazia de uma cor, no máximo duas: vermelho, azul ou amarelo. Se não subisse sem rabo, eu o destruía sem qualquer piedade.

Meu primo Jorge era igual, só fazia maranhão. A diferença ficava por conta das cores, os de meu primo Jorge pareciam caixas de lápis de cor. Era capaz de passar três ou quatro dias fabricando um. Listrados, quadriculados, triangulados, retangulados.

Meu amigo Marquinhos gostava dos rabos - rabos enormes e coloridos. Em tiras, fitas ou argolas. Geralmente, seus papagaios eram transparentes, mas seus rabos continuam mais tonalidades até que o arco-íris.

Marquinhos morava lá embaixo, perto da linha do trem, mas sua linha era a manivela, ele botava cinco ou seis carretéis e seus papagaios chegavam até a nossa rua. Comerciante nato, no dia seguinte aparecia vendendo seus rabos coloridos para os meninos que não tinham competência para fazer maranhão.

Garcia, um menino que conheci jogando basquete no clube, estudava na escola dos padres e morava no outro lado da rodovia, às vezes aparecia em nossa rua e, quando via Marquinhos oferecendo seus rabos, sempre implicava, implacável:

- Na hora de dormir, esse cara deve tomar emprestado a camisolinha cor-de-rosa da irmã...

Depois apareceram umas varetas japonesas, acabando com o charme das de bambu, que afiávamos horas e horas até ficarem leves. Também vieram uns imbecis que misturavam vidro moído na cola e passavam em suas linhas para cortar as nossas. Um antepassado do criminoso cerol, que tantos pescoços já ceifou.

Foi mais ou menos por essa época que fomos deixando de empinar nossos papagaios. Estava ficando uma brincadeira muito perigosa, de bandidos mesmo.

(*) Diorindo Lopes Júnior (www.diorindo.jor.br) é jornalista e autor de Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br) e O Sol em Capricórnio (www.atualeditora.com.br).

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