|
O PROCESSO DE EDUCAÇÃO DE HERDEIROS
Ao discutir a formação dos herdeiros de empresas familiares há um foco na formação dos gestores. É necessário, porém, um olhar especial para o herdeiro que não permanece na administração, mas mantém participação no capital. A formação dos familiares para o papel de sócios passa pela integração e preparação para o exercício do coletivo.
Muitas vezes a preparação de herdeiros se confunde, equivocadamente, com a formação para executivos. De fato, alguns herdeiros optam por se manter a frente de suas empresas. Para estes, que irão trabalhar na gestão, não há dúvida de que devem ter uma educação tão boa, ou melhor, do que profissionais não familiares.
No entanto, fica esquecida, por vezes, a formação dos herdeiros que escolhem permanecer fora da administração, mas que certamente, por herdarem parte dos negócios da família, serão sócios de seus irmãos ou primos. O maior desafio no processo de educação dos futuros sócios é a integração dos diferentes tipos de herdeiros e a clareza sobre as responsabilidades em cada papel. As decisões não são individuais, e o objetivo é o de viabilizar o exercício da decisão coletiva.
Com a passagem de uma geração para outra, esta questão se torna mais acentuada: dos pais para filhos, dos filhos, para os netos e assim por diante, a pulverização só tende a aumentar. Cada um com seus respectivos cônjuges e descendentes incrementam o número de participantes, diversidades e ao mesmo tempo a distância entre estes agentes torna o contexto cada vez mais complexo.
Para conseguir conciliar interesses, manter um objetivo comum e se fazer entender, há a exigência de preparo e formação não restrita a questões técnicas, mas principalmente voltada para a articulação legítima deste coletivo complexo e desigual. Não se podem descartar os conhecimentos técnico-administrativos, como o conhecimento do mercado, ferramentas de gestão, aspectos da macro e microeconomia, mas somente eles não bastam.
O que propomos e praticamos com o Programa de Formação de Familiares para o Papel de Sócios da Benhoeft busca suprir esta lacuna. Inclui elementos técnicos, de aproximação dos herdeiros com a empresa e seus executivos, mas principalmente de integração e articulação do coletivo da sociedade futura. A partir desta experiência, é possível começar a enfrentar o desafio de transição das gerações, encarando uma das principais peças deste quebra-cabeça.
Para haver uma interação inteligente e produtiva entre os herdeiros que atuam na gestão efetiva da empresa e os que permaneceram fora da administração, é preciso, inicialmente, fazer esta separação e assumir que são posições diferentes, com responsabilidades e resultados distintos. Normalmente, em qualquer empresa já existe certa distância entre os que administram e os que detêm participação acionária. Em uma empresa familiar estas percepções distintas podem ser potencializadas. Os que estão dentro podem se sentir "mais donos" ou "mais capazes", o que, em se tratando de participação acionária e decisão coletiva, em nada contribui.
Além das posições ocupadas oferecerem um campo de visão diferente, os herdeiros trazem consigo toda uma história familiar, de diferentes núcleos, que irão impactar sobre suas análises. Mitos, tabus, ressentimentos trazidos, muitas vezes de maneira despercebida, para as novas gerações podem inviabilizar uma efetiva articulação do coletivo e comprometer a sobrevivência da empresa familiar.
A multiplicação de participantes significa também a multiplicação de interesses. Para muitos, trabalhar na empresa não faz parte do seu sonho. No entanto, é preciso perceber a importância de seu papel enquanto sócio. Mesmo se permanecerem à margem da gestão, devem manter comprometimento com a empresa da qual, mesmo sem terem escolhido, fazem parte. O desafio é o de incluir no exercício societário os que estão fora da gestão, prevenindo, sem sombra de dúvidas, uma série de problemas futuros.
No transcorrer do tempo, sócios da mesma empresa podem vir a ter posição econômico-financeira distinta. Para conseguir entender esta diferença, aceitá-la e continuar a contribuir com a empresa onde possuem participação, os herdeiros precisam de um preparo muito especial. A própria carga de competitividade e/ou solidariedade injetada nestes familiares pela educação recebida terá um grande impacto no sucesso da transição geracional.
O processo de formação dos herdeiros se apresenta desta maneira, muito mais complexo do que o simples preparo para o exercício de gestão de uma empresa. Trata-se do desenvolvimento de um olhar mais amplo, no qual o exercício do coletivo, com a atuação de agentes cada vez mais diversos, será uma constante.
|