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DESTRUIDORES DE SONHOS
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Renato Bernhoeft, consultor de empresas
Presidente da Bernhoeft Consultoria, que representa o FBCGi -
The Family Business Consulting Group International na
América Latina
E-mail: renato@bernhoeft.com
www.bernhoeft.com |
Um tema pouco discutido nas famílias onde os pais tornaram-se figuras fortes e referentes pelo sucesso - pessoal ou profissional - que alcançaram, é a opção genuína que os filhos apresentam em relação ao encaminhamento do seu futuro. Ou seja, raras são as famílias de empresários, profissionais liberais, artistas, executivos e tantas outras atividades onde o sucesso dos pais não termina tornando-se uma referência que dificulta aos filhos descobrir seus próprios sonhos. E mais ainda, sem necessariamente serem pressionados à percorrer os mesmos caminhos e obter sucesso da mesma forma.
Para nossa realidade brasileira este tema ainda é tabu porque muitos pais partem da premissa - equivocada - que seus filhos não possuem todo instrumental e informações para suas decisões que lhes permitam caminhar pelas próprias pernas. Mesmo que seja para errar e reconsiderar suas escolhas.
Quando vejo o sucesso do cineasta Walter Moreira Salles fico imaginando que sua "coragem" para não tornar-se banqueiro, ministro ou diplomata como fez seu pai com brilhantismo deve ter sido muito apoiada por uma figura paterna que colocava a liberdade da realização muito acima do seu desejo de filhos continuadores de suas obras. É o que considero a capacidade do "criador" permitir que sua "criatura" - obras, realizações, filhos, etc. - se tornem maiores e independentes de sua figura. Mas isto não tem sido fácil para muitos pais de sucesso.
Por lidar constantemente com situações como estas é que fiquei sensibilizado pela leitura do livro "A roda da vida" de Elizabeth Kubler-Ross, M.D. - Ed. Sextante, que se tornou uma reconhecida médica que se especializou no tratamento de pacientes terminais e conduziu importantes investigações sobre a morte e o processo de morrer.
Mas o que importa é a descrição que ela faz do primeiro confronto que teve com seu pai para abordar sua opção de vida e trabalho.
Diz ela que "ao longo da vida surgem pistas que nos indicam para que direção devemos seguir. Se não damos atenção a essas pistas, fazemos opções erradas e acabamos levando uma vida infeliz. Se ficamos atentos, aprendemos nossas lições e temos uma vida plena e boa, assim como uma boa morte.
O maior dom que Deus nos concedeu foi o livre-arbítrio. O livre-arbítrio põe sobre nossos ombros a responsabilidade por fazer as melhores escolhas possíveis.
Eu estava no sexto ano escolar quando tomei minha primeira grande decisão inteiramente sozinha. Perto do fim do semestre, o professor deu uma tarefa à turma. Tínhamos de escrever uma redação sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Na Suíça, essa tarefa específica era um grande acontecimento. Era o que determinaria a nossa educação futura: receber treinamento para uma profissão ou passar anos dedicando-se a rigorosos estudos universitários.
Peguei no lápis e no papel com um entusiasmo fora do comum. Entretanto, embora eu acreditasse que estava definindo o meu destino, a realidade era outra. Nem tudo dependia da criança.
Bastaria que eu relembrasse a noite anterior. Na hora do jantar, meu pai empurrara seu prato para o lado e estudara os rostos de sua família antes de fazer uma declaração importante. Ernst Kubler era um homem forte e rijo, com opiniões coerentes com seu físico. Era muito severo e exigente com meu irmão mais velho, Ernst Júnior, e obrigara-o a seguir um caminho universitário rigoroso. Agora, estava prestes a revelar o futuro de suas filhas trigêmeas.
Uma sensação de suspense envolveu-me quando ele começou dizendo a Erika, a mais frágil das três, que ela seguiria um curso universitário. Depois disse a Eva, a menos motivada, que ela receberia uma educação não-especializada numa escola para moças. Finalmente, seus olhos voltaram-se para mim e rezei para que ele me permitisse realizar o sonho de tornar-me médica.
Que ele certamente não ignorava.
Mas nunca esquecerei o momento que se seguiu.
- Elizabeth, você vai trabalhar na minha empresa - disse ele. - Preciso de uma secretária eficiente e inteligente. É o lugar certo para você.
Fui tomada pelo desalento. Crescendo como trigêmea, uma entre três meninas idênticas, toda a minha vida tinha sido uma luta por minha identidade. Agora, mais uma vez negavam-me o direito aos pensamentos e sentimentos que me tornavam única. Imaginei-me trabalhando na empresa dele. Faria um trabalho burocrático. Sentada o dia inteiro diante de uma mesa. Escrevendo números. Os dias seriam tão rígidos quanto as linhas de um gráfico.
Não me via fazendo aquilo. Desde cedo, tivera uma imensa curiosidade sobre a vida. Olhava o mundo com admiração e reverência. Sonhava tornar-me uma médica do interior ou, melhor ainda, praticar a medicina entre os pobres da Índia, como meu herói Albert Schweitzer fizera na África. Não sei de onde me tinham vindo essas idéias, mas sabia que não fora feita para trabalhar na empresa de meu pai.
- Não, muito obrigada! - retruquei bruscamente.
Naquela época, esse tipo de rompante vindo de uma criança não era apreciado, especialmente em minha casa. Meu pai ficou vermelho de raiva. As veias de suas têmporas incharam-se. Então ele explodiu.
- Se não quer trabalhar comigo, então pode passar o resto da sua vida como
criada! - gritou, e entrou furioso no escritório.
- Para mim, está bom - respondi com aspereza, e estava sendo sincera. Preferia trabalhar como criada e aferrar-me à minha independência do que deixar que qualquer pessoa, até mesmo meu pai, me condenasse a trabalhar como guarda-livros ou secretária para o resto da vida. Seria o mesmo que ir para a prisão.
Tudo isso fez meu coração bater mais forte e minha caneta correr rápida na manhã seguinte quando, na escola, tivemos de escrever nossas redações. A minha não fazia uma única referência a qualquer tipo de trabalho de escritório. Ao contrário, escrevi com grande entusiasmo sobre seguir o exemplo de Schweitzer e ir para a selva pesquisar as muitas e variadas formas de vida. "Quero encontrar o objetivo da vida". Desafiando meu pai, também declarei que meu sonho era ser médica. Não me importava se ele lesse a redação e ficasse zangado outra vez. Ninguém poderia fazer isto por conta própria", eu dizia. "Devemos sempre tentar alcançar a estrela mais alta."
Este depoimento de uma adolescente nascida na Suíça em 1926 ainda continua - infelizmente - digno de divulgação porque não perdeu atualidade.
Resta-me apenas uma recomendação aos pais brilhantes, famosos e que obtiveram sucesso em suas vidas pessoais e profissionais: Permita aos seus filhos a manifestação mais genuína dos seus sonhos e aspirações. E saiba, ser filho de pais brilhantes não é fácil. Mesmo quando eles, conscientemente, não exercem nenhuma pressão. Seu sucesso já é uma forte pressão. Ainda que inconscientemente.
Renato Bernhoeft
Presidente da Bernhoeft-Consultoria, fundada em 1975 para apoiar sociedades empresariais e famílias empresárias a perpetuar seu conjunto de valores e seu patrimônio.
Conferencista e consultor de empresas nas áreas de profissionalização e sucessão de empresas familiares, formação de sucessores. Já atendeu, no Brasil, centenas de empresas como consultor, atuando também na Espanha, Portugal, México, Chile, Peru, Colômbia e Paraguai.
Autor de doze livros nas áreas de administração e sociedades familiares. Desde 2002 é membro da rede mundial de consultores FBCGi - Family Business Consulting Group International. |